quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Capítulo 4: Estou a pensar que as manhãs são sempre lindas...


Se eles soubessem como é, não temeriam horrores. Não é anormal aspergir este sabor a iníquo, hissopar uma certa perversidade na cadência de injustiça que me imputam. Por que raios lhes custa a compreender a urgência e até a vitalidade da minha necessidade, da minha existência? Sei. É o aspecto que, na maioria das vezes, dou ao acto, o aspecto. Que importa o aspecto? Não levam eles uma vida, a duração premente de cada um, a descobrir que aparências não conduzem a lado algum? Aparências são aparências. E se a minha evidência fosse bonita – pensa comigo – alguém, alguma vez, valorizaria o outro lado, quando não estou? Não achas que todos me encontrariam até mais cedo e em maior número porque, ao não temerem, deixariam de ser cautelosos, cuidadosos? E impugnariam a estrada, não retirariam prazer algum do veículo.

Se pudessem escutar a estridência das minhas gargalhadas, mesmo ali ao pé, a saber que a decisão do passo no abismo, embora aparente confluir, de facto, trata-se de uma colisão breve, curta, um ímpeto de trampolim na ascensão, na plena apreensão do que treme suores, do que rasga sorrisos, do que incandesce de tanto horizonte.

São inúmeras as ocasiões em que te abraço, subtilmente, e tu entregas-te sem aversão ao meu ombro. Quantas vezes me pedes, baixinho, p’ra te visitar? Apelas ao meu colo o embalo e eu pincelo-te aguarelas de transe, em retiros de mundo. Chamas-lhe o fundo do poço, estar na merda, degustar a fossa – nauseabundo o cheiro, sim. É nessa latência que te abraço e te embaraço, só para que valides as fragrâncias da natureza, aquelas que te envolvem a cada aurora e tu nem farejas. Quando ouves “Levanta-te, vai!”, sou eu, juro-te que sou eu. “Levanta-te e vai auferir o exalar do húmus, o emanar da arborescência. Vai pungir o frio enregelado do orvalho nas horas, escalvar a luxúria das hortas, das folhas teimosas que se quedam nos troncos rugosos, escaldar os teus cumes ( sejam pontas de dedos, nariz, língua ou orelhas) na rotação das estações. Quantas vezes rogas o meu apego só porque escreveste demais, cheiraste demais, falaste demais ou ouviste demais? Só porque há demasiada mão tua, intromissão tua, palavra tua ou coscuvilhice tua no que não te diz respeito. Antes que rastejes no meu embate, percebe que está na tua disposição seguir por outro rumo, o fim da derrocada. E, como vês, a vida ajeita-se a cada fim para que haja um início.

Alterar a realidade, mudar o rumo das coisas, é apenas uma questão de vontade. Se sentes que a tua vida está a ser deitada ao lixo, menosprezada, arrastada para a mais funda das trincheiras, move-te. Move um dedo e faz clique no gosto da opinião com a qual te identificas, move um dedo e faz clique na partilha da opinião com a qual te identificas, move vários dedos e comenta, em jeito de reforço, a opinião com a qual te identificas. Move ambas as mãos e escreve quem tu és, quem tu não aceitas ser, quem tu queres que desapareça do teu trajecto, quem tu abraças e fazes questão de ouvir, de ler, e de beijar todos os dias. Reforça a tua vontade, mas não te fiques pela vontade, tens de te mover para que seja vista, tens de te mover para que seja sentida, tens de te mover para que a tua realidade se altere, para que o rumo das coisas se mova no sentido certo: o teu.

Quando alguém nos engana, dá-se um abalo dentro de nós, é certo... e, abalo após abalo, vamos desconstruindo uma certa ingenuidade feliz. Não devemos, contudo, desistir dessa ingenuidade feliz, devemos aceder a acreditar na pessoa mais adiante – primeiro, não é a mesma pessoa; segundo, está mais adiante; terceiro, até pode ser a mesma pessoa mas mais adiante; quarto, tu és a mesma pessoa mas mais adiante –, e compreender, quem sabe?, a urgência de voltar a sorrir com aquele tijolo inocente que acabamos de colocar. É o que faço. Embora fragilizada; continuo a caminhar no sentido oposto ao da incredulidade. Quero muito poder voltar a acreditar. E, assim como eu, compreendo que o outro caminho também possa ser caos, ser incoerente, estar mais atrás ou mais adiante, querer muito poder voltar a acreditar. É tudo uma questão de disposição. Estás disposto a? Não perdes nada. O mais que te pode acontecer é regressar a este mesmo lugar. E este já conheces. Gostas?

Gostaria que um dia me dissesses que amas esta minha forma ambivalente de amar: tão democrática na escolha que te deixa e tão ditadora na ausência a que te obriga. Não é que não consiga viver um instante sem ti, é que cada instante sem ti só o é porque estás – mas não aqui. E, no final de contas, o que importa mesmo é estar, seja em que lado for, seja sim ou seja não. Estás?

Estou a pensar que as manhãs são sempre lindas, nos oblíquos de rubro e pálido, gélido e cálido, a costurar as penumbras com rebordo a dourado, fragrâncias de chilreares rústicos e cristas de galos a badalar os uivos na locomotiva a grãos de café à chegada dos apeadeiros. Preparado para uma nova viagem?

E há aquelas pessoas que ninguém vê, mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho, sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite, conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências, fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem os vestígios das estações. São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão sempre incansáveis pelo bem da humanidade.

Hoje, na caminhada de sempre, pelos lugares de sempre, com os pés de sempre e os horizontes de sempre, decidi fechar os olhos. Ouvi:

 " Bem-vinda! Finalmente, chegaste."

E, de repente, a pele... o calor da ventania a escancarar a porta da pele. A volta de chave na fechadura, cerrar os olhos, a pele, a porta que sempre ali esteve sem que a visse, abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, cerrar os olhos, nova volta de chave na fechadura, a pele, e o empurrão do vento a lançar-me num salto dentro

"Isso, adiante, é p'ra frente! Vamos juntos, como sempre, eu levo-te."
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:

"Amo-te. Já me vês, agora?"

Sim. Abro os olhos, não estás. Fecho os olhos, nunca deixaste de estar. A chave. A porta. A pele.

Aos olhos foi incumbida a tarefa da distração. Ver é outra coisa.

Onde é que numa vida tão fugaz quanto um relâmpago dá para pensar que algo, alguma vez, pode tornar-se pessoal?

Um dia faço-te uma surpresa. Juro que te faço uma surpresa, querido! Mais uma! Pensas que foi pessoal. Não foi nada de pessoal. Tanto veio como foi e, no preciso instante, para ali que virei. Do ímpeto, nada mais, do ímpeto –  essa sou eu, não sabias? Um dia faço-te uma surpresa, só para que tires essa pedra tão pesada, essa pedra com o meu nome, do teu coração. Um dia. Não agora. Beijo.

A bondade flui, de mim para ti, de ti para mim. Se me tornei, aos teus olhos, numa espécie de mulher boa é porque és, aos meus olhos, uma espécie de homem bom. Se te tornaste, aos meus olhos, num homem bom é porque sou, aos teus olhos, uma mulher boa. E soubemos percorrer ambas as nossas bondades, caminhar com a de outros e receber, de braços abertos, quem nos conhece ou quer conhecer.

Faz-me muita impressão que haja pessoas a estragar tanto tempo da sua vida no encalço de vinganças mesquinhas e lutas estatutárias de poder sobre o que quer que seja –  normalmente lutas vazias de vida. Será que, quando chega a hora do corpo quebrar, do corpo ceder, do corpo acabar, estas pessoas vivem um intenso inferno no ínfimo tempo terminal ao constatarem que, de facto, não viveram? Que desperdiçaram com querelas de nada a sua maior riqueza, a possibilidade de saborearem o estado saudável e pleno de se ser vivo? Olha quem pergunta, como se não soubesse.

Não podemos viver de medos quando a vida se estende sob nós num rubro decorrente de silêncio, de voz. A estrela és tu e cintilas faúlhas benzidas no percurso da vez anímica e singular que é a tua! Não podemos viver mortificados de medos, antecipar a ferocidade do fim em auroras repletas de inícios. Deixa que o medo te ocupe apenas na hora do medo, na hora fatídica do grande medo, o medo resignado do que se sabe que acabou. E mantém segura a lembrança do medo que está por vir para que vivas com coragem e plenitude a vida que te merece sorrir. Cintila as tuas faúlhas rubras e benzidas na estrela que te fizeste de terra, de gravidade, no chão. Ama e pede perdão, ama e pede perdão, ama e estende a mão.

Não desistas, meu amor, não desistas. Soubeste encontrar-me, soubeste entregar-me as tuas lágrimas, a tua dor. Soubeste o caminho até ao meu escutar, até ao meu ombro. Agora, apenas te peço que percebas a mão estendida dos meus lábios entreabertos. Confia no que soubeste até ao toque deles e aceita o meu sopro, o suspiro a entrelaçar a corda do nosso alívio, do nosso reencontro. Não desistas, meu amor, não desistas. Seguro-te nessa corda para que não te engula o teu abismo. Abdico do meu abismo para que me faças escada e trepes até à lua. Ela há-de nos confortar as cólicas e inchar connosco o ventre dos passos que nos aguardam adiante. Não desistas, meu amor, não desistas. Se sabes o caminho até à ternura do nosso tempo, sabes o caminho até ti. Confia e vem. De todas as vezes, receber-te-ei como a de hoje. De todas as vezes. Sempre. Não desistas, meu amor, não desistas de ti – para que não me desista de mim.

Não suportaria a tristeza nos teus olhos. Não é num limbo que estou. É num inferno – enjaulada na incapacidade de não amar.

Comunicar é uma necessidade tão básica e essencial que nunca o deixas de fazer, mesmo quando pensas que por estares calado não falas. Falas sempre, falas constantemente, no fluir contínuo do pensamento, sem lábios, sem língua, sem cordas vocais, sem timbre de voz para os outros, mas com timbre de vós para ti mesmo.

"Está frio",

"Magoaste-me",

"Que bem que me soube esse abraço",

"Sai-me da frente, pá",

"Vai ver se estou na esquina",

"Aleluia, percebeu, até que enfim",

"Tão lindos que eles são,

"Que orgulho ser tua mãe",

"Obrigada, meu Deus, por estas almas que trouxeste até mim",

"Obrigada, meu Deus, por me teres entregado a esta gente tão boa",

" Fazes-me muito feliz"...

É um discurso ininterrupto e contínuo, quer as palavras alcancem a fronteira da boca quer não.

Posso nem te dizer uma palavra, mas isso não significa que não me entristeça por ti nem me alegre por ti –  muito mais até do que muitos outros que te dizem palavras atrás de palavras e mais palavras... Quem não te diz palavras pode nem existir, mas sentir? Sentir é, é sempre: com ou sem palavras. Sentir não se ordena, não se comanda, não se camufla nem se apaga: com ou sem palavras. Sentir é –  até que deixa de ser aquele sentir, até que venha outro sentir, até que... mas nunca até que se comecem as palavras, até que se continuem as palavras, até que se acabem as palavras. Sentir está até que deixa de estar. Sentir fica até que deixa de ficar. Sentir é até que deixa de ser.

Em suma, de nada nos deveria importar o que queremos ou não queremos, apenas deveríamos sorrir perante o que sentimos. Se o sentes é porque é teu, é porque és tu.

Pensas que não sei como o fazer? Pensas que não sei exactamente como o fazer? Não to ensinei? Não vês como depressa lá chegaste? Como depressa ficaste? Como depressa expandiste? Pensas mesmo que não sei exactamente como o fazer? Que não o estou a fazer? A um ritmo que me convém? Pensas? Só não sei ainda como o quero fazer, por que vias ir, das que vejo estendidas p'ra eu passar. Não sei ainda como o quero continuar. E, se não o sei, é porque ainda não é a hora. É aí que eu ouço:

"Não me faças mal, pois eu só te quero é muito bem. Amo-te."

Fica mais um pouco então.



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