Se
eles soubessem como é, não temeriam horrores. Não é anormal aspergir este sabor
a iníquo, hissopar uma certa perversidade na cadência de injustiça que me
imputam. Por que raios lhes custa a compreender a urgência e até a vitalidade
da minha necessidade, da minha existência? Sei. É o aspecto que, na maioria das
vezes, dou ao acto, o aspecto. Que importa o aspecto? Não levam eles uma vida,
a duração premente de cada um, a descobrir que aparências não conduzem a lado
algum? Aparências são aparências. E se a minha evidência fosse bonita – pensa
comigo – alguém, alguma vez, valorizaria o outro lado, quando não estou? Não
achas que todos me encontrariam até mais cedo e em maior número porque, ao não
temerem, deixariam de ser cautelosos, cuidadosos? E impugnariam a estrada, não
retirariam prazer algum do veículo.
Se
pudessem escutar a estridência das minhas gargalhadas, mesmo ali ao pé, a saber
que a decisão do passo no abismo, embora aparente confluir, de facto, trata-se
de uma colisão breve, curta, um ímpeto de trampolim na ascensão, na plena
apreensão do que treme suores, do que rasga sorrisos, do que incandesce de
tanto horizonte.
São
inúmeras as ocasiões em que te abraço, subtilmente, e tu entregas-te sem
aversão ao meu ombro. Quantas vezes me pedes, baixinho, p’ra te visitar? Apelas
ao meu colo o embalo e eu pincelo-te aguarelas de transe, em retiros de mundo.
Chamas-lhe o fundo do poço, estar na merda, degustar a fossa – nauseabundo o
cheiro, sim. É nessa latência que te abraço e te embaraço, só para que valides
as fragrâncias da natureza, aquelas que te envolvem a cada aurora e tu nem
farejas. Quando ouves “Levanta-te, vai!”, sou eu, juro-te que sou eu.
“Levanta-te e vai auferir o exalar do húmus, o emanar da arborescência. Vai
pungir o frio enregelado do orvalho nas horas, escalvar a luxúria das hortas,
das folhas teimosas que se quedam nos troncos rugosos, escaldar os teus cumes (
sejam pontas de dedos, nariz, língua ou orelhas) na rotação das estações.
Quantas vezes rogas o meu apego só porque escreveste demais, cheiraste demais,
falaste demais ou ouviste demais? Só porque há demasiada mão tua, intromissão
tua, palavra tua ou coscuvilhice tua no que não te diz respeito. Antes que
rastejes no meu embate, percebe que está na tua disposição seguir por outro
rumo, o fim da derrocada. E, como vês, a vida ajeita-se a cada fim para que
haja um início.
Alterar a
realidade, mudar o rumo das coisas, é apenas uma questão de vontade. Se sentes
que a tua vida está a ser deitada ao lixo, menosprezada, arrastada para a mais
funda das trincheiras, move-te. Move um dedo e faz clique no gosto da opinião
com a qual te identificas, move um dedo e faz clique na partilha da opinião com
a qual te identificas, move vários dedos e comenta, em jeito de reforço, a
opinião com a qual te identificas. Move ambas as mãos e escreve quem tu és,
quem tu não aceitas ser, quem tu queres que desapareça do teu trajecto, quem tu
abraças e fazes questão de ouvir, de ler, e de beijar todos os dias. Reforça a
tua vontade, mas não te fiques pela vontade, tens de te mover para que seja
vista, tens de te mover para que seja sentida, tens de te mover para que a tua
realidade se altere, para que o rumo das coisas se mova no sentido certo: o teu.
Quando alguém nos engana, dá-se um
abalo dentro de nós, é certo... e, abalo após abalo, vamos desconstruindo uma
certa ingenuidade feliz. Não devemos, contudo, desistir dessa ingenuidade
feliz, devemos aceder a acreditar na pessoa mais adiante – primeiro, não é a
mesma pessoa; segundo, está mais adiante; terceiro, até pode ser a mesma pessoa
mas mais adiante; quarto, tu és a mesma pessoa mas mais adiante –, e
compreender, quem sabe?, a urgência de voltar a sorrir com aquele tijolo
inocente que acabamos de colocar. É o que faço. Embora fragilizada; continuo a
caminhar no sentido oposto ao da incredulidade. Quero muito poder voltar a
acreditar. E, assim como eu, compreendo que o outro caminho também possa ser
caos, ser incoerente, estar mais atrás ou mais adiante, querer muito poder
voltar a acreditar. É tudo uma questão de disposição. Estás disposto a? Não
perdes nada. O mais que te pode acontecer é regressar a este mesmo lugar. E
este já conheces. Gostas?
Gostaria que um dia me
dissesses que amas esta minha forma ambivalente de amar: tão democrática na
escolha que te deixa e tão ditadora na ausência a que te obriga. Não é que não
consiga viver um instante sem ti, é que cada instante sem ti só o é porque
estás – mas não aqui. E, no final de contas, o que importa mesmo é estar, seja
em que lado for, seja sim ou seja não. Estás?
Estou a pensar que as
manhãs são sempre lindas, nos oblíquos de rubro e pálido, gélido e cálido, a
costurar as penumbras com rebordo a dourado, fragrâncias de chilreares rústicos
e cristas de galos a badalar os uivos na locomotiva a grãos de café à chegada
dos apeadeiros. Preparado para uma nova viagem?
E há aquelas pessoas que ninguém vê,
mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho,
sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser
feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes
génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar
tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite,
conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências,
fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem
os vestígios das estações. São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com
as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São
elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas
orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão
sempre incansáveis pelo bem da humanidade.
Hoje, na caminhada de sempre, pelos
lugares de sempre, com os pés de sempre e os horizontes de sempre, decidi
fechar os olhos. Ouvi:
" Bem-vinda! Finalmente, chegaste."
E, de repente, a pele... o calor da ventania a
escancarar a porta da pele. A volta de chave na fechadura, cerrar os olhos, a
pele, a porta que sempre ali esteve sem que a visse, abrir os olhos, fechou-se,
sumiu-se, cerrar os olhos, nova volta de chave na fechadura, a pele, e o
empurrão do vento a lançar-me num salto dentro
"Isso, adiante, é p'ra frente!
Vamos juntos, como sempre, eu levo-te."
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:
"Amo-te. Já me vês,
agora?"
Sim. Abro os olhos, não estás. Fecho os olhos, nunca
deixaste de estar. A chave. A porta. A pele.
Aos olhos foi incumbida a tarefa da
distração. Ver é outra coisa.
Onde
é que numa vida tão fugaz quanto um relâmpago dá para pensar que algo, alguma
vez, pode tornar-se pessoal?
Um
dia faço-te uma surpresa. Juro que te faço uma surpresa, querido! Mais uma!
Pensas que foi pessoal. Não foi nada de pessoal. Tanto veio como foi e, no
preciso instante, para ali que virei. Do ímpeto, nada mais, do ímpeto – essa sou eu, não sabias? Um dia faço-te uma
surpresa, só para que tires essa pedra tão pesada, essa pedra com o meu nome,
do teu coração. Um dia. Não agora. Beijo.
A
bondade flui, de mim para ti, de ti para mim. Se me tornei, aos teus olhos,
numa espécie de mulher boa é porque és, aos meus olhos, uma espécie de homem
bom. Se te tornaste, aos meus olhos, num homem bom é porque sou, aos teus
olhos, uma mulher boa. E soubemos percorrer ambas as nossas bondades, caminhar
com a de outros e receber, de braços abertos, quem nos conhece ou quer
conhecer.
Faz-me
muita impressão que haja pessoas a estragar tanto tempo da sua vida no encalço
de vinganças mesquinhas e lutas estatutárias de poder sobre o que quer que seja
– normalmente lutas vazias de vida. Será
que, quando chega a hora do corpo quebrar, do corpo ceder, do corpo acabar,
estas pessoas vivem um intenso inferno no ínfimo tempo terminal ao constatarem
que, de facto, não viveram? Que desperdiçaram com querelas de nada a sua maior
riqueza, a possibilidade de saborearem o estado saudável e pleno de se ser
vivo? Olha quem pergunta, como se não soubesse.
Não podemos viver de medos quando a
vida se estende sob nós num rubro decorrente de silêncio, de voz. A estrela és
tu e cintilas faúlhas benzidas no percurso da vez anímica e singular que é a
tua! Não podemos viver mortificados de medos, antecipar a ferocidade do fim em
auroras repletas de inícios. Deixa que o medo te ocupe apenas na hora do medo, na
hora fatídica do grande medo, o medo resignado do que se sabe que acabou. E
mantém segura a lembrança do medo que está por vir para que vivas com coragem e
plenitude a vida que te merece sorrir. Cintila as tuas faúlhas rubras e
benzidas na estrela que te fizeste de terra, de gravidade, no chão. Ama e pede
perdão, ama e pede perdão, ama e estende a mão.
Não desistas, meu amor, não
desistas. Soubeste encontrar-me, soubeste entregar-me as tuas lágrimas, a tua
dor. Soubeste o caminho até ao meu escutar, até ao meu ombro. Agora, apenas te
peço que percebas a mão estendida dos meus lábios entreabertos. Confia no que soubeste
até ao toque deles e aceita o meu sopro, o suspiro a entrelaçar a corda do
nosso alívio, do nosso reencontro. Não desistas, meu amor, não desistas.
Seguro-te nessa corda para que não te engula o teu abismo. Abdico do meu abismo
para que me faças escada e trepes até à lua. Ela há-de nos confortar as cólicas
e inchar connosco o ventre dos passos que nos aguardam adiante. Não desistas,
meu amor, não desistas. Se sabes o caminho até à ternura do nosso tempo, sabes
o caminho até ti. Confia e vem. De todas as vezes, receber-te-ei como a de
hoje. De todas as vezes. Sempre. Não desistas, meu amor, não desistas de ti – para
que não me desista de mim.
Não suportaria a
tristeza nos teus olhos. Não é num limbo que estou. É num inferno – enjaulada
na incapacidade de não amar.
Comunicar é uma necessidade tão
básica e essencial que nunca o deixas de fazer, mesmo quando pensas que por
estares calado não falas. Falas sempre, falas constantemente, no fluir contínuo
do pensamento, sem lábios, sem língua, sem cordas vocais, sem timbre de voz
para os outros, mas com timbre de vós para ti mesmo.
"Está frio",
"Magoaste-me",
"Que bem que me soube esse
abraço",
"Sai-me da frente, pá",
"Vai ver se estou na
esquina",
"Aleluia, percebeu, até que
enfim",
"Tão lindos que eles são,
"Que orgulho ser tua mãe",
"Obrigada, meu Deus, por estas
almas que trouxeste até mim",
"Obrigada, meu Deus, por me
teres entregado a esta gente tão boa",
" Fazes-me muito feliz"...
É um discurso ininterrupto e
contínuo, quer as palavras alcancem a fronteira da boca quer não.
Posso nem te dizer uma palavra, mas isso
não significa que não me entristeça por ti nem me alegre por ti – muito mais até do que muitos outros que te
dizem palavras atrás de palavras e mais palavras... Quem não te diz palavras
pode nem existir, mas sentir? Sentir é, é sempre: com ou sem palavras. Sentir
não se ordena, não se comanda, não se camufla nem se apaga: com ou sem
palavras. Sentir é – até que deixa de
ser aquele sentir, até que venha outro sentir, até que... mas nunca até que se
comecem as palavras, até que se continuem as palavras, até que se acabem as
palavras. Sentir está até que deixa de estar. Sentir fica até que deixa de
ficar. Sentir é até que deixa de ser.
Em suma, de nada nos
deveria importar o que queremos ou não queremos, apenas deveríamos sorrir
perante o que sentimos. Se o sentes é porque é teu, é porque és tu.
Pensas que não sei como
o fazer? Pensas que não sei exactamente como o fazer? Não to ensinei? Não vês
como depressa lá chegaste? Como depressa ficaste? Como depressa expandiste?
Pensas mesmo que não sei exactamente como o fazer? Que não o estou a fazer? A
um ritmo que me convém? Pensas? Só não sei ainda como o quero fazer, por que
vias ir, das que vejo estendidas p'ra eu passar. Não sei ainda como o quero
continuar. E, se não o sei, é porque ainda não é a hora. É aí que eu ouço:
"Não me faças mal, pois eu só
te quero é muito bem. Amo-te."
Fica mais um pouco então.
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