sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 22


Há que tentar para que o remorso não nos abafe a alma. Pelo menos saberemos que aquele trilho já percorremos e que as vergastadas nas pernas e braços valeram as arritmias. Debalde deixamos de o temer e de o considerar. Sem fôlego, o olhar sorri à escuridão daquele outro carreiro, mais atrás ou mais adiante – este amanheceu de repente, enterneceu a curiosidade, quebraram-se temor e encanto.

Mais um palmo de mundo no mapa da minha busca. A sensação é a mesma de sempre: saciedade e insatisfação: só isto?

Todos caímos – alguns tropeçam, outros são pregados na cruz com rasteiras. Todos caímos –  uns aldrabam a queda, camuflam as feridas, e fingem uma erecção permanente; outros sorriem o elevar de rosto –  é isso que as quedas fazem, quebram-nos nas pernas mas erguem-nos no olhar ( chamo-lhes despertar, ter um vislumbre de céu); outros choram o que caiu e, enquanto se afundam naquele bolor,  verdete de ser que parece não conseguir se libertar do acto de escorregar, esquecem que já estão no chão, e que se estão na lama mais vale besuntarem-se nela, esfregarem-na na cara de todos, e só aí romperem as lágrimas para que lavem a subida na sujidade impregnada no coração dos hipócritas.

Há uma pele luzidia em ti a soerguer-te essa demanda.

E, lembra-te, todos caímos.

 Conceição Sousa in "FICA"

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