sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 24


 

É com muita tristeza que ouço nas notícias que a taxa de suicídio entre as pessoas de bem, vítimas desta política abraçada ao capital, aumentou exponencialmente. É por isso que a chamo de política criminosa. É com muita tristeza que percebo que o meu ensaio fictício, a minha reflexão demorada sobre as circunstâncias actuais, se torna realidade. Não é preciso ser muito inteligente para perceber ao que nos conduzem estas insistentes escolhas políticas. Já lá estivemos, lembra-se?

– Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora, partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém: ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora, numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia da época em que vivemos. Há a desintegração total. O que se segue a tal abandono? Construção? Não. Desafortunadamente e inevitavelmente, o oposto . Sim, sei, já lá estivemos.

Lamento todas as mortes que têm ocorrido, e ainda as que vão ocorrer, desnecessariamente.

 – Derrubaram-nos os alicerces, mais uma vez, a casa ruiu. Agora, deambulamos por aqui e por ali, sem rumo certo, sem sequer ter a esperança de encontrar um lugar onde erigir de novo um possível ( até da palavra temos medo...) sonho. A única certeza que temos é a de que há um vazio de critérios. Os válidos deixaram de existir. Todas as conquistas foram apagadas. Roubaram-nos a projecção de um futuro, as economias de um passado. Percorremos um terreno pantanoso. Ninguém sabe o que o próximo passo trará, e já ninguém quer saber. A Democracia perdeu-se das suas bases, deixou de o ser. Todos acordam e sabem que deixaram de acreditar. A magia acontecerá no momento em que o povo vir a justiça a tirar a venda e a colocá-la nos pulsos dos que nos usurparam a vida. Só aí poderemos voltar a acreditar, dizem.

É tudo uma questão de vontade política, o tempo de um querer, o ensejo de olhar para as pessoas, o sacrifício de uma vida, que já pagaram a triplicar (em juros) pelas suas casas e, agora, porque as colocaram em dificuldade, vêem-se obrigadas a desistir dos seus projectos, dos seus afectos, das suas memórias, ao entregá-las ao banco. Quem resiste a tamanho golpe?

– Tenho a dizer-lhe que todos os dias recebo uma notícia triste, uma notícia directamente relacionada com a política do nosso governo: alguém próximo que perdeu o emprego, alguém próximo que teve de emigrar, alguém próximo que (por conta dos sucessivos cortes no salário ou reforma) não consegue cumprir os seus compromissos, alguém próximo que está a passar fome, alguém próximo que não consegue pagar a conta da luz, da água, do gás, alguém próximo que perdeu a casa, alguém próximo que não conseguiu tratar o seu problema de saúde e, por isso, faleceu. Digo-lhe, de coração, a minha luta é visível, é diária (como a de todos, suponho eu) e, por vezes, faltam-me as forças. Felizmente, ainda consigo buscar algum ânimo na escrita e espero que a escrita nunca me falhe.

 – Diz-me, de coração… pois quando se tem um, de verdade, o mundo abate-se sobre nós, resisto e luto o mais que posso também; estou aqui p'ra mim e p'ra si, espero que alguém do outro lado, que se saiba mover entre eles, os políticos, os retire rapidamente, pois isto de nação já não tem é nada.
Esta gente não está ao serviço do país. Esta gente põe, descaradamente, o país ao serviço deles. Infelizmente, vivemos uma ditadura mascarada de democracia. E não é de agora. Tirem-nos imediatamente e urgentemente do destino de todos nós. Eu, por mim, faço o que sei: escrevo. Em tempos, até mandei um artigo para o jornal.  Agora, estou velha e cansada.

Conceição Sousa in "FICA"

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