– É com muita tristeza que ouço nas
notícias que a taxa de suicídio entre as pessoas de bem, vítimas desta política
abraçada ao capital, aumentou exponencialmente. É por isso que a chamo de
política criminosa. É com muita tristeza que percebo que o meu ensaio fictício,
a minha reflexão demorada sobre as circunstâncias actuais, se torna realidade.
Não é preciso ser muito inteligente para perceber ao que nos conduzem estas
insistentes escolhas políticas. Já lá estivemos, lembra-se?
–
Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das
famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora,
partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém:
ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem
qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque
esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha
deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora,
numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia
da época em que vivemos. Há a desintegração total. O que se segue a tal
abandono? Construção? Não. Desafortunadamente e inevitavelmente, o oposto .
Sim, sei, já lá estivemos.
– Lamento
todas as mortes que têm ocorrido, e ainda as que vão ocorrer,
desnecessariamente.
– Derrubaram-nos os
alicerces, mais uma vez, a casa ruiu. Agora, deambulamos por aqui e por ali,
sem rumo certo, sem sequer ter a esperança de encontrar um lugar onde erigir de
novo um possível ( até da palavra temos medo...) sonho. A única certeza que
temos é a de que há um vazio de critérios. Os válidos deixaram de existir.
Todas as conquistas foram apagadas. Roubaram-nos a projecção de um futuro, as
economias de um passado. Percorremos um terreno pantanoso. Ninguém sabe o que o
próximo passo trará, e já ninguém quer saber. A Democracia perdeu-se das suas
bases, deixou de o ser. Todos acordam e sabem que deixaram de acreditar. A
magia acontecerá no momento em que o povo vir a justiça a tirar a venda e a
colocá-la nos pulsos dos que nos usurparam a vida. Só aí poderemos voltar a
acreditar, dizem.
– É tudo uma
questão de vontade política, o tempo de um querer, o ensejo de olhar para as
pessoas, o sacrifício de uma vida, que já pagaram a triplicar (em juros) pelas
suas casas e, agora, porque as colocaram em dificuldade, vêem-se obrigadas a
desistir dos seus projectos, dos seus afectos, das suas memórias, ao
entregá-las ao banco. Quem resiste a tamanho golpe?
– Tenho a
dizer-lhe que todos os dias recebo uma notícia triste, uma notícia directamente
relacionada com a política do nosso governo: alguém próximo que perdeu o
emprego, alguém próximo que teve de emigrar, alguém próximo que (por conta dos
sucessivos cortes no salário ou reforma) não consegue cumprir os seus
compromissos, alguém próximo que está a passar fome, alguém próximo que não
consegue pagar a conta da luz, da água, do gás, alguém próximo que perdeu a
casa, alguém próximo que não conseguiu tratar o seu problema de saúde e, por
isso, faleceu. Digo-lhe, de coração, a minha luta é visível, é diária (como a
de todos, suponho eu) e, por vezes, faltam-me as forças. Felizmente, ainda
consigo buscar algum ânimo na escrita e espero que a escrita nunca me falhe.
– Diz-me, de coração… pois quando se tem um,
de verdade, o mundo abate-se sobre nós, resisto e luto o mais que posso também;
estou aqui p'ra mim e p'ra si, espero que alguém do outro lado, que se saiba
mover entre eles, os políticos, os retire rapidamente, pois isto de nação já
não tem é nada.
– Esta
gente não está ao serviço do país. Esta gente põe, descaradamente, o país ao
serviço deles. Infelizmente, vivemos uma ditadura mascarada de democracia. E
não é de agora. Tirem-nos
imediatamente e urgentemente do destino de todos nós. Eu, por mim, faço o que
sei: escrevo. Em tempos, até mandei um artigo para o jornal. Agora, estou velha e cansada. Conceição Sousa in "FICA"
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