sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Bonbocas

O que eu sinta ou possa sentir não importa, até porque é um sentir atabalhoado, não raras vezes desfasado do que deveria ver e não vê, ouvir e não ouve... é um sentir meu, estranho, complexo, desconexo. O que eu sinta ou possa sentir não importa. Importa, sim, o que sei: esse redondo olhar atento que me alcança a todo o instante, rotineiro no embalo do meu coração, quente no abraço que me trazes todas as noites, não com café ( porque já não posso), mas com o vapor da cevada, ...ou do chá de limão e o calor do bombom a derreter-se no seio da nossa vida, da nossa paixão. Nem sei como... é verdade... nem sei como: às vezes, acho que não mereço um amor assim. Mentira: lá no fundo, sei que me ergues lá no alto, qual taça de champanhe, o triunfo da vitória da nossa dedicação, só porque foi Deus que te me entregou, quando mais eu o precisava e quando mais eu o pedi. Será que o sentes ao meu amor, amor meu? Será que me sentes como mereces sentir o amor? Gratidão a ti, meu amor, ser de luz, por te manteres tão leal ao sentimento de nós. Nem vou desejar que continues a cobrir-me de mimos e de beijos e de devoção, há um cansaço de um hábito divino na forma como as tuas mãos arregaçam as mangas e nos entregam ao colo a um destino tão doce, à nossa comunhão. Hoje, trouxeste bonbocas, vê lá tu. Eu, aqui, a escrever, tu entras e os miúdos gritam: bonbocas, papá!
Sorrio porque chegaste e dás-me um beijo, mas mumumumumumum deixa-me mummummum dizer-te uma coisa:
- Há bocas disparatadas e com ares de multifunções: falam, comem e beijam; pelo menos tentam fazer tudo ao mesmo tempo. Disparate!
(Quem fala é a mão. Quem come é... - Ok. Eu paro. Bolinha vermelha ao canto superior direito.)


Conceição Sousa in "FICA"