Saber que alguém, um dia, vai saber que estive aqui e, de uma forma aproximada, conhecer o que senti, pensei e vivi, faz com que a inevitabilidade da morte se torne numa ideia mais suportável. Que diferença fará, perguntam, quando já não estiveres, que alguém conheça, de uma forma aproximada, o que sentiste, pensaste ou viveste? Sei lá... já não estarei, é certo, mas a minha passagem por aqui valerá por algo que se esquecerá com o tempo e não por algo que nunca aconteceu - acho que é isso. Não quero tornar-me em algo que nunca aconteceu, compreendes? Sentes este amor maior? Quando digo que te amo, é isto: saber que sabes que te aconteci. Não basta dizê-lo, tenho mesmo de escrevê-lo, para que se prolongue no tempo. Que ninguém diga que nunca aconteceu, que tu não digas que nunca aconteceu, está escrito: amo-te, meu amor, sim. Senti no meu tempo, pensei no meu tempo, vivi no meu tempo, e disse-to, e escrevi-o para que não nos tornemos em algo que nunca existiu: amo-te mesmo muito, meu amor, tanto quanto o sentido da existência. Beija-me, agora. É bom que todos pensem que me beijaste mesmo. O sentido da minha existência é um só: o de amar. Sentir que sou amada? Sim, sinto, com menos intensidade do que a necessidade de amar. Talvez até por sentir este menos, ame em todas as direções e ainda mais. O que ganharia eu e perderia o mundo se sentisse em pleno um amor que me bastasse...Com toda a certeza, não teria tempo para o escrever... ou talvez escrevesse, euforicamente, ainda mais, quiçá? Alguém que escreve para que se saiba que sentiu, pensou, viveu, que aconteceu, será porque procurará a plenitude que não teve no seu tempo de vida num extra-tempo, talvez... Uma mordaça no meu pensamento que isto já ultrapassou os limites da boca. Beija-me, agora. É bom que todos saibam que me beijaste mesmo.Não os de agora, os do extra-tempo. Será que também me queres beijar, tu, o do extra-tempo? Não queiras, não sofras por cumplicidade com o registo egoísta da minha alma. Vive o que o teu tempo te dá e permite. O que não existe, não existe mesmo. E eu, este eu contemporâneo, já acabou, findou. Vejo uma mulher tão linda na mesa de trás. Não queres espreitar e beijá-la a ela? Vai, que eu fico feliz.
Conceição Sousa in "FICA"
sábado, 22 de novembro de 2014
sábado, 15 de novembro de 2014
Capítulo 28
Ela deixou os filhos
com a mãe e foi buscá-lo, ao aeroporto. Nem sabia como se comportar. Há uma
década que não se viam. Desentenderam-se, tinha a criança de ambos cinco anos.
Ele emigrou; ela desesperou e encontrou num outro companheiro o conforto que a
sua fragilidade pedia. Uma tranquilidade que só durou um par de anos e da qual
resultou mais uma criança. Tinha agora um filho de quinze anos e uma menina de
nove. Nada na vida dava certo, a não ser a bênção de ser mãe. Começava a
exasperar. “Tinha um filho de cada homem”, o irmão. “Iludiu-se”, o irmão. “Tens
de ter juízo agora”, o irmão, “que uma mulher não pode andar por aí a namorar,
que já és muito falada, que estás a ser egoísta e a fazer sofrer os pais, e
toda a gente sabe”, o irmão, divorciado pela quarta vez e com uma diferente a
cada semana. “Há que praticar a Insustentável Leveza do Ser”, mana, “são amigas
coloridas, a ser confortadas de três em três semanas que assim não se põem com
ideias nem há chatices, amigas coloridas, mas eu sou homem e posso, tu és
mulher”.
Conceição Sousa in "FICA"
Capítulo 27
Olha,
lá vão eles, lado a lado, o engravatado e o encapuzado, e trocam as voltas ao
tempo como trocam as voltas à vida, como trocam as voltas ao bolso – porque,
sim, é lá que ambos são amigos, é lá que ambos se encontram, no bolso.
E
o encapuzado diz:
–
Olha,
olha! Repara! É de ouro o colar que traz ao pescoço, é de diamante o anel que
lhe cobre o dedo, e de pele a carteira a tiracolo, vamos lá, é grande o dia,
mãos ao ar!
E
o engravatado reforça:
– Mãos ao ar!
E
a septuagenária, amedrontada, pede misericórdia:
– Mas por que me roubais,
Santo Cristo? Por que roubais esta pobre em fim de linha? O que me levais é
tudo o que consegui de precioso, uma vida de suor, uma vida de trabalho, uma
família que não tive, um emprego que me comeu os nós das mãos, uma fome que me
soprou a corcunda, Santo Cristo!
O
encapuzado atenta nos olhos do engravatado:
–
É para os meus filhos comerem, Senhora. Minha Rica Senhora, não se zangue, é
para os meus filhos comerem. Se tivera filhos, haveria de compreender, minha
rica Senhora…
O
engravatado pasma na boca do encapuzado:
–
Cala-te p’raí, ó trapo velho! Já não andas cá a fazer nada. Esse ouro e
diamante ficam-me a matar. É p’ra adoçar a boca do gigante do petróleo. Assim,
dá-me um lugarzinho lá na firma e eu deixo de contar os tostões. Não falta
nada, vou ser o Dr. Manda Chuva, ai que não vou! Manda p’ra cá e bico calado,
senão levo-te p’ra choldra por falta de comparecimento!
A
septuagenária, que de miopia não tem nada, observa:
– Usas capuz, mas falas
com educação e há aí um mais-que-perfeito a indicar que também tens suado, meu
querido menino. Pena as más companhias, esse linguajar desse aí de gravata é de
quem só conhece o papo para o ar, a preguiça de respirar e as artimanhas das
heranças encomendadas, de quem é ensinado a vender os próprios pais pelos
próprios.
O
engravatado acotovela o encapuzado:
– Olha, olha agora para
aquele lado! Aqueles grisalhos! Estão descalços a jogar as cartas, mas sempre
podemos roubar…
O
encapuzado não acredita no que está a ouvir:
–
Roubar?
O
engravatado dá um sorriso amarelo:
– Roubar a alegria, pá,
roubar a alegria! E pode ser que, se os abanarmos bem, saiam ovos de ouro pelo…
O
encapuzado tapa-lhe a boca:
– Não digas mais. Não vês
que já nada têm? Estão descalços, pá! A partir daqui, se quiseres, continua
sozinho. Eu, por hoje, já me arremedio, já tenho ovos, massa e feijão por mais
de um mês. Mas era bom se parasses. Não vês que nem para o caixão?
O
engravatado barafusta:
–
Queres assim, óptimo! Desaparece-me da vista! Eu ainda tenho muita alegria para
estourar. Ninguém me pára, ninguém me pára. Tu usas o capuz de vergonha, mas eu
não tenho vergonha. Eu uso a gravata de orgulho, é com orgulho que p’ra eles
andarem descalços eu uso gravata! E talvez ainda saiam uns ovinhos… Mãos ao ar!
Srs.
Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (já nem me dirijo aos outros
acima na hierarquia porque não são de cá, da Terra, humanos, são uma espécie de
alienígenas com tiques de pactos de agressividade), a redução do défice e o
término da espiral recessiva (que os cidadãos não vivenciam), os vangloriosos
resultados a que afirmais a boca cheia teres chegado ( e que os cidadãos não
sentem) são à custa de cortes unilaterais e arbitrários nos rendimentos do
trabalho ( de agora e de outrora); são à custa do roubo diário da dignidade das
famílias ( da felicidade das famílias), da possibilidade de honrarem os seus
compromissos, a sua palavra, o seu fio condutor ( perdemos o Norte, sabeis
disso?); são à custa de cada vez mais sem-abrigo, de cada vez mais negligência
nos cuidados de saúde, na assistência à terceira-idade; são à custa do
holocausto do desemprego, da fuga apocalíptica de muitos (aos milhares) da sua
nação (uma que sentem como estranguladora, exploratória, implacável no
desrespeito pela dignidade humana, gratuita nas injustiças, em pleno corredor
da morte quanto à quebra do voto de confiança e dos alicerces da democracia – a
tentar perceber como vai acontecer, injecção letal?); são à custa do contínuo
assalto fiscal, das desculpas esfarrapadas burocráticas para comer um pouco
mais da fome de quem já nada tem ( e tudo serve, até um recibo que alguém
esqueceu de guardar – vamos lá ver se o barro cola à parede…); são à custa da
machadada certeira nas pernas curtas de muitos trabalhadores independentes (
que ilusão, meu Deus!) que, pese embora a honestidade de o declararem que o são
( nem sempre é assim – e esses têm mais sorte), trabalhadores necessitados de
actividade lateral prioritária independente para sobrevivência ao flagelo da
ditadura mascarada de democracia, são barbaramente bombardeados com mais
assalto aos parcos rendimentos de circunstância que auferem ( “era para tapar
aquele buraco, mas, meu amigo, cavei um mais fundo ainda”, dirão agora, com a
corda ao pescoço).
Srs.
Deputados do governo e oposição de faz-de-conta ( não quero crer que também
sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos
de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites
vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo
cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de
prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão
sacanear outros!
Dedos
erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria
reflexiva, instintiva e combativa.
E
porque alguém, funcionário precário do Estado ( do Estado, um de direito, quem diria?)
há décadas, a ser colocado ora aqui, ora ali, ora acolá, a ser obrigado a
endividar-se com os bancos ( pois claro! – se não caminhasse para aí é que
seria de estranhar, não?) para comprar fraldas, mantimentos, consultas
pediátricas e deslocações, atirar-se de cabeça numa actividade independente (
deixem-no iludir-se…) como botija de oxigénio ( até o ar se paga, não sabeis?)
para conseguir continuar a pôr comida na mesa – não sem antes ter de fazer um
amplo investimento com possível risco de não retorno ( se bem que numa de não
retorno já se encontrava) – e eis que a digníssima Segurança Social, na
assinatura da sua diretora, exige um valor mensal soberbo ( ai que vontade de
rir, se não fosse para chorar – e até já chorei!) porque há uma mesquinhice
propositada legislativa que exige o cumprimento de prazos, exige que alguém que
não tem retorno do investimento numa atividade independente pague aquilo que
não tem (deixem-me respirar! Ufa! encontrem-me outra botija! Preciso
urgentemente de outra botija!...).
Ah!,
neste caso não há cruzamento de dados. Há p’ra tudo o resto que seja
divinatório de assalto fiscal, mas para reposições de verdades, de cumprimento
de obrigações, de contabilização de descontos feitos pelo funcionário do Estado
para o Estado, aí fecha-se os olhos às informações internáuticas centrais e
vai-se buscar um pormenor burocrático
legislativo, configurado a dedo cirúrgico, para abrir um pouco mais o buraco.
Dedos
erguidos! Dedos bem erguidos, bem tesos, para arremessar no papel toda a fúria
humana de humanização e existencial! Dedos prontos a denunciar, a não calar, a
chafurdar toda esta merda!
Como
pode alguém sobreviver a estes ataques constantes e contínuos perpetrados por
quem, supostamente, deveria representar o cidadão? A má fé abunda na Casa do
Povo que deixou de ser a Casa do Povo.
Exmos.
Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta, o país não está a ser capaz
de construir porque vós fazeis questão que não seja capaz de construir; vós,
com a vossa contínua e alarmante atitude destrutora implacável de direitos
básicos consagrados na Constituição, a Lei Fundamental, zeladora dos alicerces
da Democracia.
Essa
deixou de ser a Casa do Povo e passou a ser a Assembleia da Esquizofrenia.
Dedos erguidos! Dedos bem tesos, bem
erguidos! Se é p’ra entrar na merda, ao menos que valha a pena.
Conceição Sousa in "FICA"
Capítulo 24
– É com muita tristeza que ouço nas
notícias que a taxa de suicídio entre as pessoas de bem, vítimas desta política
abraçada ao capital, aumentou exponencialmente. É por isso que a chamo de
política criminosa. É com muita tristeza que percebo que o meu ensaio fictício,
a minha reflexão demorada sobre as circunstâncias actuais, se torna realidade.
Não é preciso ser muito inteligente para perceber ao que nos conduzem estas
insistentes escolhas políticas. Já lá estivemos, lembra-se?
–
Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das
famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora,
partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém:
ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem
qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque
esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha
deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora,
numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia
da época em que vivemos. Há a desintegração total. O que se segue a tal
abandono? Construção? Não. Desafortunadamente e inevitavelmente, o oposto .
Sim, sei, já lá estivemos.
– Lamento
todas as mortes que têm ocorrido, e ainda as que vão ocorrer,
desnecessariamente.
– Derrubaram-nos os
alicerces, mais uma vez, a casa ruiu. Agora, deambulamos por aqui e por ali,
sem rumo certo, sem sequer ter a esperança de encontrar um lugar onde erigir de
novo um possível ( até da palavra temos medo...) sonho. A única certeza que
temos é a de que há um vazio de critérios. Os válidos deixaram de existir.
Todas as conquistas foram apagadas. Roubaram-nos a projecção de um futuro, as
economias de um passado. Percorremos um terreno pantanoso. Ninguém sabe o que o
próximo passo trará, e já ninguém quer saber. A Democracia perdeu-se das suas
bases, deixou de o ser. Todos acordam e sabem que deixaram de acreditar. A
magia acontecerá no momento em que o povo vir a justiça a tirar a venda e a
colocá-la nos pulsos dos que nos usurparam a vida. Só aí poderemos voltar a
acreditar, dizem.
– É tudo uma
questão de vontade política, o tempo de um querer, o ensejo de olhar para as
pessoas, o sacrifício de uma vida, que já pagaram a triplicar (em juros) pelas
suas casas e, agora, porque as colocaram em dificuldade, vêem-se obrigadas a
desistir dos seus projectos, dos seus afectos, das suas memórias, ao
entregá-las ao banco. Quem resiste a tamanho golpe?
– Tenho a
dizer-lhe que todos os dias recebo uma notícia triste, uma notícia directamente
relacionada com a política do nosso governo: alguém próximo que perdeu o
emprego, alguém próximo que teve de emigrar, alguém próximo que (por conta dos
sucessivos cortes no salário ou reforma) não consegue cumprir os seus
compromissos, alguém próximo que está a passar fome, alguém próximo que não
consegue pagar a conta da luz, da água, do gás, alguém próximo que perdeu a
casa, alguém próximo que não conseguiu tratar o seu problema de saúde e, por
isso, faleceu. Digo-lhe, de coração, a minha luta é visível, é diária (como a
de todos, suponho eu) e, por vezes, faltam-me as forças. Felizmente, ainda
consigo buscar algum ânimo na escrita e espero que a escrita nunca me falhe.
– Diz-me, de coração… pois quando se tem um,
de verdade, o mundo abate-se sobre nós, resisto e luto o mais que posso também;
estou aqui p'ra mim e p'ra si, espero que alguém do outro lado, que se saiba
mover entre eles, os políticos, os retire rapidamente, pois isto de nação já
não tem é nada.
– Esta
gente não está ao serviço do país. Esta gente põe, descaradamente, o país ao
serviço deles. Infelizmente, vivemos uma ditadura mascarada de democracia. E
não é de agora. Tirem-nos
imediatamente e urgentemente do destino de todos nós. Eu, por mim, faço o que
sei: escrevo. Em tempos, até mandei um artigo para o jornal. Agora, estou velha e cansada. Conceição Sousa in "FICA"
Capítulo 22
Há
que tentar para que o remorso não nos abafe a alma. Pelo menos saberemos que
aquele trilho já percorremos e que as vergastadas nas pernas e braços valeram
as arritmias. Debalde deixamos de o temer e de o considerar. Sem fôlego, o
olhar sorri à escuridão daquele outro carreiro, mais atrás ou mais adiante –
este amanheceu de repente, enterneceu a curiosidade, quebraram-se temor e
encanto.
Mais
um palmo de mundo no mapa da minha busca. A sensação é a mesma de sempre: saciedade
e insatisfação: só isto?
Todos
caímos – alguns tropeçam, outros são pregados na cruz com rasteiras. Todos
caímos – uns aldrabam a queda, camuflam
as feridas, e fingem uma erecção permanente; outros sorriem o elevar de rosto –
é isso que as quedas fazem, quebram-nos
nas pernas mas erguem-nos no olhar ( chamo-lhes despertar, ter um vislumbre de
céu); outros choram o que caiu e, enquanto se afundam naquele bolor, verdete de ser que parece não conseguir se
libertar do acto de escorregar, esquecem que já estão no chão, e que se estão
na lama mais vale besuntarem-se nela, esfregarem-na na cara de todos, e só aí
romperem as lágrimas para que lavem a subida na sujidade impregnada no coração
dos hipócritas.
Há
uma pele luzidia em ti a soerguer-te essa demanda.
E,
lembra-te, todos caímos.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
falta de pão?
– Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora, partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém: ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora, numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia da época em que vivemos.
perdoar a dívida?
Façamos contas: 100. 000 euros de empréstimo à habitação, a 25 anos de pagamento, tendo já passado dez. Uma média de 500 euros mensais de prestação da casa; uma média, nos primeiros sete anos, de 350 euros de pagamento de juros ( a ser meiga…); uma média de 150 euros de juros ( a ser muito meiga…) nos restantes três anos que perfazem a década. Quanto foi cobrado? 60.000 euros. Quanto foi efectivamente pago para a dívida? 25.200 euros. Quanto falta para a totalidade da dívida...? 74. 800 euros. Quanto cobrou o banco para si? 34. 800 euros. Eu repito: apesar da família ter pago ao banco 60.000 euros ( faltando pois 40.000 para perfazer os 100.000), devido à ganância na taxa de juro, na verdade, a família só liquidou 25.200 euros.
Esta família trabalhou, suou, sangrou, cumpriu e entregou 60.000 euros. Então como é? Perdoar a dívida o raio que os parta. Repor a verdade, meus amigos. Repor a verdade. As famílias não devem rigorosamente nada. As famílias não têm de ser perdoadas de rigorosamente nada. Quem deve são os bancos. Quem deve é o Estado. Quem deve é o sistema financeiro, quem deve é o sistema político ( que acoberta e ganha dividendos com as manobras do sistema financeiro). Quem tem de ser perdoado é o sistema financeiro, quem tem de ser perdoado é o sistema político, e ambas as suas ganâncias – mas não aconselho: não é hora de perdoar aos carrascos.
O não termos, ainda, força para destronar um sistema podre e ilícito, não significa que sejamos estúpidos, meus amigos. Não, não somos estúpidos. Sabemos perfeitamente quem deve a quem e quem tem de ser perdoado por quem. Repito: Banca e Estado devem aos cidadãos, devem respeito, devem representatividade, devem honestidade, devem legitimidade, devem humanidade. Banca e Estado têm de ser perdoados pela sua dívida de longa data, a que se juntam juros de mora de longa data, execuções fiscais e penhoras do erário público ainda em cima da mesa, e uma grande hipoteca de humanidade: mas não é hora de perdoar aos carrascos.”
Esta família trabalhou, suou, sangrou, cumpriu e entregou 60.000 euros. Então como é? Perdoar a dívida o raio que os parta. Repor a verdade, meus amigos. Repor a verdade. As famílias não devem rigorosamente nada. As famílias não têm de ser perdoadas de rigorosamente nada. Quem deve são os bancos. Quem deve é o Estado. Quem deve é o sistema financeiro, quem deve é o sistema político ( que acoberta e ganha dividendos com as manobras do sistema financeiro). Quem tem de ser perdoado é o sistema financeiro, quem tem de ser perdoado é o sistema político, e ambas as suas ganâncias – mas não aconselho: não é hora de perdoar aos carrascos.
O não termos, ainda, força para destronar um sistema podre e ilícito, não significa que sejamos estúpidos, meus amigos. Não, não somos estúpidos. Sabemos perfeitamente quem deve a quem e quem tem de ser perdoado por quem. Repito: Banca e Estado devem aos cidadãos, devem respeito, devem representatividade, devem honestidade, devem legitimidade, devem humanidade. Banca e Estado têm de ser perdoados pela sua dívida de longa data, a que se juntam juros de mora de longa data, execuções fiscais e penhoras do erário público ainda em cima da mesa, e uma grande hipoteca de humanidade: mas não é hora de perdoar aos carrascos.”
pagadores de impostos
– É preciso que saibam que nos querem conformados e subservientes, nós, os escravos, nós, os metecos pagadores de impostos; e, com jeitinho, nós, as mulheres, fadas do lar. Voltámos ao conceito de cidadania da Grécia antiga? Cuidado! O que será que os governos da actualidade entendem como cidadão? Os velhos? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. Os doentes? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. O cidadão nacional? Não. Convém que emigre, e, já agora, que mande para cá o pastel. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Capítulo 4: Estou a pensar que as manhãs são sempre lindas...
Se
eles soubessem como é, não temeriam horrores. Não é anormal aspergir este sabor
a iníquo, hissopar uma certa perversidade na cadência de injustiça que me
imputam. Por que raios lhes custa a compreender a urgência e até a vitalidade
da minha necessidade, da minha existência? Sei. É o aspecto que, na maioria das
vezes, dou ao acto, o aspecto. Que importa o aspecto? Não levam eles uma vida,
a duração premente de cada um, a descobrir que aparências não conduzem a lado
algum? Aparências são aparências. E se a minha evidência fosse bonita – pensa
comigo – alguém, alguma vez, valorizaria o outro lado, quando não estou? Não
achas que todos me encontrariam até mais cedo e em maior número porque, ao não
temerem, deixariam de ser cautelosos, cuidadosos? E impugnariam a estrada, não
retirariam prazer algum do veículo.
Se
pudessem escutar a estridência das minhas gargalhadas, mesmo ali ao pé, a saber
que a decisão do passo no abismo, embora aparente confluir, de facto, trata-se
de uma colisão breve, curta, um ímpeto de trampolim na ascensão, na plena
apreensão do que treme suores, do que rasga sorrisos, do que incandesce de
tanto horizonte.
São
inúmeras as ocasiões em que te abraço, subtilmente, e tu entregas-te sem
aversão ao meu ombro. Quantas vezes me pedes, baixinho, p’ra te visitar? Apelas
ao meu colo o embalo e eu pincelo-te aguarelas de transe, em retiros de mundo.
Chamas-lhe o fundo do poço, estar na merda, degustar a fossa – nauseabundo o
cheiro, sim. É nessa latência que te abraço e te embaraço, só para que valides
as fragrâncias da natureza, aquelas que te envolvem a cada aurora e tu nem
farejas. Quando ouves “Levanta-te, vai!”, sou eu, juro-te que sou eu.
“Levanta-te e vai auferir o exalar do húmus, o emanar da arborescência. Vai
pungir o frio enregelado do orvalho nas horas, escalvar a luxúria das hortas,
das folhas teimosas que se quedam nos troncos rugosos, escaldar os teus cumes (
sejam pontas de dedos, nariz, língua ou orelhas) na rotação das estações.
Quantas vezes rogas o meu apego só porque escreveste demais, cheiraste demais,
falaste demais ou ouviste demais? Só porque há demasiada mão tua, intromissão
tua, palavra tua ou coscuvilhice tua no que não te diz respeito. Antes que
rastejes no meu embate, percebe que está na tua disposição seguir por outro
rumo, o fim da derrocada. E, como vês, a vida ajeita-se a cada fim para que
haja um início.
Alterar a
realidade, mudar o rumo das coisas, é apenas uma questão de vontade. Se sentes
que a tua vida está a ser deitada ao lixo, menosprezada, arrastada para a mais
funda das trincheiras, move-te. Move um dedo e faz clique no gosto da opinião
com a qual te identificas, move um dedo e faz clique na partilha da opinião com
a qual te identificas, move vários dedos e comenta, em jeito de reforço, a
opinião com a qual te identificas. Move ambas as mãos e escreve quem tu és,
quem tu não aceitas ser, quem tu queres que desapareça do teu trajecto, quem tu
abraças e fazes questão de ouvir, de ler, e de beijar todos os dias. Reforça a
tua vontade, mas não te fiques pela vontade, tens de te mover para que seja
vista, tens de te mover para que seja sentida, tens de te mover para que a tua
realidade se altere, para que o rumo das coisas se mova no sentido certo: o teu.
Quando alguém nos engana, dá-se um
abalo dentro de nós, é certo... e, abalo após abalo, vamos desconstruindo uma
certa ingenuidade feliz. Não devemos, contudo, desistir dessa ingenuidade
feliz, devemos aceder a acreditar na pessoa mais adiante – primeiro, não é a
mesma pessoa; segundo, está mais adiante; terceiro, até pode ser a mesma pessoa
mas mais adiante; quarto, tu és a mesma pessoa mas mais adiante –, e
compreender, quem sabe?, a urgência de voltar a sorrir com aquele tijolo
inocente que acabamos de colocar. É o que faço. Embora fragilizada; continuo a
caminhar no sentido oposto ao da incredulidade. Quero muito poder voltar a
acreditar. E, assim como eu, compreendo que o outro caminho também possa ser
caos, ser incoerente, estar mais atrás ou mais adiante, querer muito poder
voltar a acreditar. É tudo uma questão de disposição. Estás disposto a? Não
perdes nada. O mais que te pode acontecer é regressar a este mesmo lugar. E
este já conheces. Gostas?
Gostaria que um dia me
dissesses que amas esta minha forma ambivalente de amar: tão democrática na
escolha que te deixa e tão ditadora na ausência a que te obriga. Não é que não
consiga viver um instante sem ti, é que cada instante sem ti só o é porque
estás – mas não aqui. E, no final de contas, o que importa mesmo é estar, seja
em que lado for, seja sim ou seja não. Estás?
Estou a pensar que as
manhãs são sempre lindas, nos oblíquos de rubro e pálido, gélido e cálido, a
costurar as penumbras com rebordo a dourado, fragrâncias de chilreares rústicos
e cristas de galos a badalar os uivos na locomotiva a grãos de café à chegada
dos apeadeiros. Preparado para uma nova viagem?
E há aquelas pessoas que ninguém vê,
mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho,
sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser
feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes
génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar
tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite,
conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências,
fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem
os vestígios das estações. São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com
as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São
elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas
orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão
sempre incansáveis pelo bem da humanidade.
Hoje, na caminhada de sempre, pelos
lugares de sempre, com os pés de sempre e os horizontes de sempre, decidi
fechar os olhos. Ouvi:
" Bem-vinda! Finalmente, chegaste."
E, de repente, a pele... o calor da ventania a
escancarar a porta da pele. A volta de chave na fechadura, cerrar os olhos, a
pele, a porta que sempre ali esteve sem que a visse, abrir os olhos, fechou-se,
sumiu-se, cerrar os olhos, nova volta de chave na fechadura, a pele, e o
empurrão do vento a lançar-me num salto dentro
"Isso, adiante, é p'ra frente!
Vamos juntos, como sempre, eu levo-te."
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:
"Amo-te. Já me vês,
agora?"
Sim. Abro os olhos, não estás. Fecho os olhos, nunca
deixaste de estar. A chave. A porta. A pele.
Aos olhos foi incumbida a tarefa da
distração. Ver é outra coisa.
Onde
é que numa vida tão fugaz quanto um relâmpago dá para pensar que algo, alguma
vez, pode tornar-se pessoal?
Um
dia faço-te uma surpresa. Juro que te faço uma surpresa, querido! Mais uma!
Pensas que foi pessoal. Não foi nada de pessoal. Tanto veio como foi e, no
preciso instante, para ali que virei. Do ímpeto, nada mais, do ímpeto – essa sou eu, não sabias? Um dia faço-te uma
surpresa, só para que tires essa pedra tão pesada, essa pedra com o meu nome,
do teu coração. Um dia. Não agora. Beijo.
A
bondade flui, de mim para ti, de ti para mim. Se me tornei, aos teus olhos,
numa espécie de mulher boa é porque és, aos meus olhos, uma espécie de homem
bom. Se te tornaste, aos meus olhos, num homem bom é porque sou, aos teus
olhos, uma mulher boa. E soubemos percorrer ambas as nossas bondades, caminhar
com a de outros e receber, de braços abertos, quem nos conhece ou quer
conhecer.
Faz-me
muita impressão que haja pessoas a estragar tanto tempo da sua vida no encalço
de vinganças mesquinhas e lutas estatutárias de poder sobre o que quer que seja
– normalmente lutas vazias de vida. Será
que, quando chega a hora do corpo quebrar, do corpo ceder, do corpo acabar,
estas pessoas vivem um intenso inferno no ínfimo tempo terminal ao constatarem
que, de facto, não viveram? Que desperdiçaram com querelas de nada a sua maior
riqueza, a possibilidade de saborearem o estado saudável e pleno de se ser
vivo? Olha quem pergunta, como se não soubesse.
Não podemos viver de medos quando a
vida se estende sob nós num rubro decorrente de silêncio, de voz. A estrela és
tu e cintilas faúlhas benzidas no percurso da vez anímica e singular que é a
tua! Não podemos viver mortificados de medos, antecipar a ferocidade do fim em
auroras repletas de inícios. Deixa que o medo te ocupe apenas na hora do medo, na
hora fatídica do grande medo, o medo resignado do que se sabe que acabou. E
mantém segura a lembrança do medo que está por vir para que vivas com coragem e
plenitude a vida que te merece sorrir. Cintila as tuas faúlhas rubras e
benzidas na estrela que te fizeste de terra, de gravidade, no chão. Ama e pede
perdão, ama e pede perdão, ama e estende a mão.
Não desistas, meu amor, não
desistas. Soubeste encontrar-me, soubeste entregar-me as tuas lágrimas, a tua
dor. Soubeste o caminho até ao meu escutar, até ao meu ombro. Agora, apenas te
peço que percebas a mão estendida dos meus lábios entreabertos. Confia no que soubeste
até ao toque deles e aceita o meu sopro, o suspiro a entrelaçar a corda do
nosso alívio, do nosso reencontro. Não desistas, meu amor, não desistas.
Seguro-te nessa corda para que não te engula o teu abismo. Abdico do meu abismo
para que me faças escada e trepes até à lua. Ela há-de nos confortar as cólicas
e inchar connosco o ventre dos passos que nos aguardam adiante. Não desistas,
meu amor, não desistas. Se sabes o caminho até à ternura do nosso tempo, sabes
o caminho até ti. Confia e vem. De todas as vezes, receber-te-ei como a de
hoje. De todas as vezes. Sempre. Não desistas, meu amor, não desistas de ti – para
que não me desista de mim.
Não suportaria a
tristeza nos teus olhos. Não é num limbo que estou. É num inferno – enjaulada
na incapacidade de não amar.
Comunicar é uma necessidade tão
básica e essencial que nunca o deixas de fazer, mesmo quando pensas que por
estares calado não falas. Falas sempre, falas constantemente, no fluir contínuo
do pensamento, sem lábios, sem língua, sem cordas vocais, sem timbre de voz
para os outros, mas com timbre de vós para ti mesmo.
"Está frio",
"Magoaste-me",
"Que bem que me soube esse
abraço",
"Sai-me da frente, pá",
"Vai ver se estou na
esquina",
"Aleluia, percebeu, até que
enfim",
"Tão lindos que eles são,
"Que orgulho ser tua mãe",
"Obrigada, meu Deus, por estas
almas que trouxeste até mim",
"Obrigada, meu Deus, por me
teres entregado a esta gente tão boa",
" Fazes-me muito feliz"...
É um discurso ininterrupto e
contínuo, quer as palavras alcancem a fronteira da boca quer não.
Posso nem te dizer uma palavra, mas isso
não significa que não me entristeça por ti nem me alegre por ti – muito mais até do que muitos outros que te
dizem palavras atrás de palavras e mais palavras... Quem não te diz palavras
pode nem existir, mas sentir? Sentir é, é sempre: com ou sem palavras. Sentir
não se ordena, não se comanda, não se camufla nem se apaga: com ou sem
palavras. Sentir é – até que deixa de
ser aquele sentir, até que venha outro sentir, até que... mas nunca até que se
comecem as palavras, até que se continuem as palavras, até que se acabem as
palavras. Sentir está até que deixa de estar. Sentir fica até que deixa de
ficar. Sentir é até que deixa de ser.
Em suma, de nada nos
deveria importar o que queremos ou não queremos, apenas deveríamos sorrir
perante o que sentimos. Se o sentes é porque é teu, é porque és tu.
Pensas que não sei como
o fazer? Pensas que não sei exactamente como o fazer? Não to ensinei? Não vês
como depressa lá chegaste? Como depressa ficaste? Como depressa expandiste?
Pensas mesmo que não sei exactamente como o fazer? Que não o estou a fazer? A
um ritmo que me convém? Pensas? Só não sei ainda como o quero fazer, por que
vias ir, das que vejo estendidas p'ra eu passar. Não sei ainda como o quero
continuar. E, se não o sei, é porque ainda não é a hora. É aí que eu ouço:
"Não me faças mal, pois eu só
te quero é muito bem. Amo-te."
Fica mais um pouco então.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Capítulo 3: Quem sou eu? Quem sou eu?
Éramos
garotos. Teríamos uns treze anos. Brincávamos à cabra-cega, junto com outras
crianças, descalços na rua poeirenta a tanger a espiral nebulosa dos astros. Era
ela quem tinha os olhos vendados. Girava sobre si mesma; aguardava, apreensiva,
invasões, braços estendidos na horizontal, dedos a tentar palpar o vácuo, a
dedilhar o espesso, a apressar o sustentáculo de uma vereda, o alicerce de um
muro (ainda que amovível); toques furtivos das outras crianças, e sacudidelas
de ombros a cada pressão intrusiva, o ressumar hídrico de gargalhadas
longínquas, a salivação de vasos a cada pontapé de estilhaço acidentado, poros
desobstruídos a inalar a sensação de estarmos no centro de uma abóbada não
vitalícia, em rotação, em movimento giratório à roda do seu eixo fixo ( fixo?):
ela.
–
Não me empurrem! Empurrar não vale!
–
Quem sou eu? Quem sou seu?
–
Apalpa, estou aqui, aqui!
–
Não! Deste lado, é p’ra este lado!
–
Já chega! Estou zonza. Não consigo segurar-te. Ah, agarrei-te! Tu és… não vale
fugir!
–
Quem sou eu? Quem sou eu?
Curioso…
tudo na vida se resume a esta questão “Quem sou eu?” e a indícios de olhos
vendados “Quem sou eu?”. Isso: quem és tu?... Sabe, até uma brincadeira de
infância me suscita dúvidas, a suspeita de rumor de indicação divina, um boato
previamente gravado que fustiga o instante, que se repercute sempre que os
dedos estalam o clamor da ocasião; um ensejo reiterado, não suficientemente
cicatrizado, em cada inauguração de busca. Seria mais fácil se não lhe
percebêssemos este tique de engano, de mensagem pré-definida, se partíssemos
simplesmente do vácuo, cada um a granjear a verdade que é a sua. Debalde, provimos
de uma armadilha, olhos cercados por dores várias, panos pretos, escuridões
profundas que não as nossas. E quando, finalmente, somos capazes de abrir os
olhos e ver, sofremos a fractura da fantasia, a imaturidade do que consumimos
como real mas que não é significativo de verdade, é apenas uma preparação. As
pálpebras deixam de estar cerradas, é verdade; não obstante o mundo ofende e
nós tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é mais suportável
pressupor o que está mesmo à nossa frente, ser mordiscado aqui e ali por laivos
de dor, relâmpagos de unhas a cravarem-nos na carne, lentamente sermos
invadidos por fragmentos de medo e não abocanhá-lo completo. Isso seria
mortífero. Tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é menos
sofrível inventar o desconhecido. Quando somos obrigados a ver, seleccionamos
pedaços de conforto: uma brisa que nos cobre de ternura, uma fragrância que nos
embala o sono, um coaxar que nos liberta o ímpeto na direcção do sorriso, o rastejar
da serpente que descama a pele que já não serve. Quando nos forçam a ver,
depois de muitos tragos de graça, pinceladas
de clarões e migalhas de espírito, quando nos abençoam finalmente com o
verdadeiro ver: é tarde demais.
–
Quem sou eu? Quem sou eu?
–
Ah, apanhei-te! Daqui já não sais. Ora, tu és a…o… – ela indagava e rodava todo
o meu corpo no interior das suas frágeis mãos; tacteava o meu rosto como se
abrisse um leque de magnólias, era o cheiro da sua voz. – Tu és o…– Um leque de magnólias a adocicar o tremor
inflamado dos meus lábios entreabertos, um leque de magnólias a arrastar para
longe todas as facas espetadas no meu peito ( dessas falar-lhe-ei mais tarde,
porque aos treze anos já muitas dores apertavam o meu pescoço); e a temperatura do
corpo dela tirava harmonias das minhas cordas vocais, instigava o rubro do
sangue a atraiçoar o interior das veias e a entranhar-se nas minhas bochechas.
Até a cor do meu sangue afogueava as orelhas na direcção de um ponto de
contacto: queria pertencer-lhe. As outras crianças:
–
Tomatina! Tomatina! Tomatina!
–
Vamos espremer-te! Vamos espremer-te!
–
Tomatina! Tomatina!
Tapas-me os olhos, coloco as minhas
mãos por sobre as tuas mãos, tacteio-te, sorrindo, só para que se estenda mais
um pouco o momento, o nosso momento. O cheiro da tua pele conta-me, naquela
fracção de segundo, no começo do toque, quem tu és, não guarda segredo,
sussurra-me o teu nome. Encontras-me sempre, e nem te digo onde…
–
Tomatina? Já sei! Tomatina só há um: o meu Chapulin Colorado!
Era
assim que ela me chamava, sempre que me via, neste caso palpava, envergonhado,
de bochechas e orelhas escandecidas: “O meu Chapulin Colorado”… Sabe quem era?
Eu explico-lhe: um herói animado, um herói sem dinheiro, sem recursos, sem
inventos sensacionais, débil e tonto. Era assim que ela me via, um pé-rapado
rúbeo, débil e tonto, e com uma coragem a roçar o ridículo; o herói dela. Chapulin
Colorado era uma espécie de anti-herói, satirizava todos aqueles heróis norte-americanos
com super-poderes e fazia uma crítica social à América Latina. Chapulin
Colorado representava o patriotismo, declarava que os seus defendidos não
precisavam de heróis importados. O polegar vermelho indicava a urgência de um
herói nacional que, embora fraco, pudesse enfrentar com coragem o
individualismo invasor de qualquer superpotência externa. Eu era esse herói: um
vesgo, desajeitado, com ares de intelectual, ou vulgo nerd, defensor dos
oprimidos. Às vezes, na escola, tinha uma série deles, de mangas arregaçadas e
olhar ameaçador, a pendurar-me pelas calças nos cabides à entrada da sala de
aula; mesmo assim, apertava os lábios e arreganhava os dentes como os
leopardos, e socava o ar com ambos os punhos, energicamente, de bochechas e orelhas
enfurecidas, só para ouvir:
–
O meu Chapulin Colorado. – murmurou, no meu ouvido, enquanto se amparava nas
minhas costas com o abraço de quem sabe que chegou a casa, ao porto de abrigo.
– O meu Chapulin Colorado.
Ela
tirou a venda e sorriu-me como sempre sorria, com aqueles sorrisos de porta
escancarada a dizer “entra”. Nem precisaria de limpar os pés, mas esfregava-os
de sobremaneira no tapete e descalçava-me com parcimónia. Para entrar no
sorriso dela teria de ser assim, descalço, com uma vénia e um abraço de porto
de abrigo. Éramos cúmplices. Todos me gozavam, menos ela. Ela captava o leve
entreolhar do meu abismo; ela percebia-me, lá no alto, a ponderar saltos ( não
de bungee-jumping, claro; outro tipo de saltos: às vezes para cair, às vezes
para planar, às vezes para voar). Ela compreendia o rasgo de diafragma, sempre
que o gang do costume me espalmava a mochila, arreganhava no poste ou
esparramava cachaços de “nunca!”. Ela entreouvia a minha falta de fôlego. Um
dia, abaloei-me de coragem, numa aula de laboratório em Física- Química e
disse-lhe:
–
Se eu sou o teu Chapulin Colorado, tu és a minha Liesel.
–
A tua quê?
–
A minha Liesel. Nunca leste o livro de Markus Zusak?
–
Markus quem?
–
A menina que roubava livros. É o título do livro de Markus Zusak. Essa menina
chama-se Liesel.
–
Mas eu não roubo livros, só os levo emprestado. Devolvo-os sempre.
–
Pensas que não te vi, a tirar um livro da prateleira da mãe do
“ai-que-me-dói-aqui”?
–
Já te disse. É só emprestado. Quando acabar de ler, devolvo. – retorquiu, já
para o aborrecida.
Há-de
estar a perguntar-se porque tínhamos um amigo a quem apelidámos de
“ai-que-me-dói-aqui”? Parece um pouco cruel, mas não. O “ai-que-me-dói-aqui”
era um menino que passava a vida assustado ora com a queda no recreio que lhe
deslocava o ombro, ora com a bolada no jogo de futebol que lhe acertava em
cheio no olho, ora com a tosse imparável da gripe que lhe massacrava o peito.
Em conversa, confidenciou-nos que começou a temer a morte, aos seis anos,
quando o seu cachorro morreu. Nem sabia o que isso era: morrer. Só se apercebeu
da crueldade em não se estar vivo quando quis, no dia seguinte, pegar no
cachorro do ninho e pô-lo na varanda para fazer as suas necessidades matinais e
chamou por ele. Repetiu o nome do bicho até à exaustão, sempre à espera de que
aquele vazio acabasse, sempre a aguardar a corridinha frenética de quatro patas
e a tentativa de trepar pela perna acima, sempre a garantia de que o latido se
escutaria de imediato. Não se escutou, não trepou, não correu, nem ninho havia.
E os dias que se seguiram foram de uma solidão pesada. P’ra todo o lado que
olhasse, era o silêncio. Um silêncio de quatro patas a passear-se no seu rosto,
de lambidelas nas suas mãos, de ardor no peito só que não do calor do bicho:
“ai-que-me-dói-aqui”, começou, de olhos marejados, o suplício da sua mãe;
“ai-que-me-dói-aqui”, prolongou-se a penitência nos maxilares aferroados do seu
pai; “ai-que-me-dói-aqui”, arrastava-se o padecimento na resignação da avó;
“ai-que-me-dói-aqui”, alastrava-se a compaixão ao protectorado do avô;
“ai-que-me-dói-aqui”, enviesavam-se as histórias na multiplicação de pesares
que escalavam na comunidade escolar… o luto pelo seu yorkshire terrier foi desastroso,
mas necessário. Um dia, em jeito de desabafo e de brincadeira, alguém disse :
–
Vamos acabar com as tuas mágoas, amigo. A partir de hoje vamos chamar-te de
“ai-que-me-dói-aqui”!
E
todos riram, inclusive o “ai-que-me-dói-aqui”. A verdade é que por milagre ele
começou a esquecer-se das dores e passou a sorrir muito mais. A minha Liesel
não gostou muito da ideia de ser chamada de Liesel, mas depois que lhe contei
melhor a história da menina que roubava livros, ela aquiesceu.
–
Não é só por isso que te vou chamar de Liesel. É porque és adoptada, como ela foi,
e porque canalizas urgências para a literatura. A Liesel lia livros que roubava
ou trazia emprestado e ajudava, com os livros, quem precisava da sua amizade a
retomar a consciência de si; mudava as vidas em redor.
–
E tu achas que eu ajudo as pessoas a tomar consciência de si e mudo as vidas em
redor, Chapulin?
–
Vou responder-te com uma música: Your Song de Elton John, conheces?
–
Não, mas tenho a sensação de que vou passar a conhecer. – inquiriu, ao passo
que ele buscava no telemóvel o ficheiro da música.
– Encontrei! Escuta:
“And you can tell everybody this is your song,
It may be quite simple, but now that it's done,
I hope you don't mind, I hope you don't mind
that I put down in words,
How wonderful life is while you're in the world.”
Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. – terminou, após ter
colocado o fone esquerdo na sua orelha direita e o fone direito na orelha
esquerda dela.
Como
a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. Basicamente era isso. Desde
que a minha Liesel estivesse, tudo era aturável, até mesmo o gang das
picardias, aquele que me levava à ardência do Colorado, a troca da esquerda com
a direita ou a direita com a esquerda.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Capítulo 2: Nunca teve um grande amor, meu doce?
Encontravam-se,
como já há um bouquet de meses o ornavam e com a conivência das estações (sem
que disso dois terços de vagar o soubessem), no banco do jardim. Dispunham, ao
desatarem as cordas das suas vivências, do trajecto cálido e incipiente até ao
cemitério, mesmo ali à beira, a sondar as badaladas de ocasião – isso eles
tinham aprendido, que tudo se resume a uma badalada de ocasião: ou é agora ou é
nunca. A série ininterrupta de instantes que, quer queiramos quer não, e por
muito que tentemos demorar-nos, flui sempre num rio unidirecional imparável de
suspiros até ao culminar do nosso sopro. Vicejavam cada etapa de mundo, cada
pormenor de longínquo a roçar as areias esvaídas do sonho, no perscrutar dos
movimentos soltos, frescos e ondulantes das crianças que brincavam alheias e
sorridentes no parque infantil adiante. Uma certa saudade, uma certa revolta,
uma certa inveja dos movimentos soltos, frescos e ondulantes.
Será
que o vivi mesmo? Será que era eu? Não me reconheço, és-me um estranho nas
catacumbas do tempo… Vegetavam com força para que aqueles outros, aqueles
muitos outros anteriores a si, não vaporizassem. Não mereciam sofrer prejuízo,
dano, ruína, dissipar-se… ai que dor!, pensar que tudo cai na amnésia do esquecimento.
Ostentavam-se corpos ténues e combalidos, os que outrora foram e os que agora
eram, para que não se perdessem, por culpa ou descuido, contingência ou
desgraça (sei lá!), definitivamente no carrocel daquela medida arbitrária de
duração das coisas. E quanto tempo urge para que se sinta algo como durável?
Haverá mesmo um sentido das coisas? E um sentido das coisas que permaneça? A
mim tudo me parece efémero e fugaz, puf!, já foi, aconteceu de acontecido logo
deixou de existir – se é que alguma vez existiu de facto. O que é existir? É o
que fica, de afável? As crianças. Até ao interregno das memórias. Benditos
sejam os anjos que nascem com ímpeto de historiador.
–
Isto de malbaratar a vida, amigo, não é do meu feitio. – confessou-lhe, a sua
orelha a proteger-se do frio no ombro robusto dele, a mão na orelha dele, a
mordiscar-lhe o fresquinho, um hábito que a acompanha desde o biberão. – Não podemos
menosprezar o tempo a que já não regressamos, não acha? Há que confidenciar
todos os nossos passos, reter a objectiva em locais onde estivemos e a que não
voltamos; rebater olhares, trejeitos, sorrisos e lágrimas; diluí-los no apego a
um sentido de missão e resgatá-los numa carta, no auricular de um neto, de uma
neta, no tactear de um caminho de rugas sensatas e atentas no rosto de um
amigo, um que por sinal escreve. – Sorriu, ao de leve, enquanto reclinava a
sobrancelha à procura do cintilar de espelho na retina mais acima. – Ouviu-me,
não ouviu?
–
Sim, minha querida, embora surdo para setenta por cento de mundo vencido, este
meu ouvido direito ainda me brinda com uma certa cortesia de me fazer escutar
laivos de permanência. E eu adoro, simplesmente adoro, tudo o que me diz. Pena
não tê-la conhecido bem lá atrás, esta de agora, quando a pujança ainda me
assistia ao tónus muscular. Ainda se arranja qualquer coisinha, filha. –
Brincou, ao engelhar a ponta do nariz, como que a perguntar “queres?” –
Qualquer, não. Vamos fazer isto direito: a coisinha. Porque é, novamente, “a
tal” sabe? Sinto-a como “ a tal”, linda.
–
Novamente? – inquiriu, curiosa de saber quantas vidas assomadas de paixão
aquele seu actual companheiro furtivo diário de banco de jardim abraçou.
Quantas não seria bem o alvo da sua atenção. Talvez, de certeza!, como aquele
homem tão cativante e prenhe de intenso as havia beijado. Quem ele era. Quem,
lá no âmago, ele era. Porque, à superfície, doía-lhe aquela vontade tardia de
ficar quando sabia o campo santo mesmo ali ao pé. Não era justo. Tão tarde. Não
era justo. Queria muito ficar.
–
Vou contar-lhe o que tanto quer saber. Vou contar-lhe por que me faz lembrar o
que sentia quando a tinha por perto, quando a vida me fez saber o nome dela:
minha. E assim foi, até ao fim. Minha. Minha. Minha. A minha mulher. A minha
linda mulher. A minha vida.
–
Deve ser bom ter tido um amor assim. O que eu não daria por ter um amor assim,
ai! – admoestou-se, um pouco enciumada. Não sabe se por aquele homem não estar
a olhar apenas para si e ter um passado grandioso com o qual não se imaginava
sequer com capacidade para competir, ou se por ter a sensação amarga de nunca
ter vivido um grande amor. Não quer dizer que não tenha tido os seus amores,
que não tenha feito por cuidar deles, preservá-los, que não tenha sido feliz na
tranquilidade que sempre, tão racionalmente, calculou. Não ia, contudo,
enganar-se. Nunca auferiu de um amor paixão. Nem sabe sequer se teria sido bom.
Sentir? Sentiu. Um par de vezes, e só. Sempre fiapos de sol. Ou não foi correspondida.
Foi-lhe dito que não era correspondida. Foi-lhe feito sentir que era
descartável, que havia alguém acima na hierarquia, alguém prioritário, e que
ela não era das que alguma vez pudesse entrar nessa categoria. Ser considerada
prioritária. Ou o seu fiapo de sol amainou quando compreendeu a enorme
distância que o outro estava das suas expectativas. É certo que, em ambas as
ocasiões, sentiu que chegou tarde, sentiu que era amada mas para uma outra vida
talvez. Não é que não fosse amada. Sentiu que o era. Até na escalada do
prioritário, talvez a prioridade fosse ela, mas a cobardia ou a presunção de
quem a amava prioritariamente era maior. Ou a tinham por garantida e escolhiam
sempre ir a outro lugar, estar com outras pessoas, envolvidos em outras actividades,
porque depois ela estaria no lugar de sempre à espera; ou preferiam não
arriscar o abalo daquele impulso, daquela agitação intempestiva, acobardavam-se
e deixavam-se estar, confortáveis no amor tranquilo de que usufruíam com outros.
–
Nunca teve um grande amor, meu doce? – indagou, perplexo; conseguia perceber o
elevado grau de beleza nas feições e na alma da sua companheira de banco de
jardim ao pé do campo santo. Parecia-lhe inacreditável que aquela menina de
olhos grisalhos ambivalentes, ora cor de floresta em plena monção se o cinzento
acoberta o céu, ora cor de mel em pele de avelã se o azul platina em forros
dourados, tivesse passado pela vida sem ter sido vista, sem ter sido encantada,
sem ter degustado todos os prazeres de um amor cúmplice no fogo e na água. Que
coração não estremece quando a tempestade se acerca? E ela carregava cheias fluviais
na bruma iodada daquelas íris. Que alma não grita ao toque aveludado do
vociferar ternurento? E ela chispava feixes de afeição na candura com que
estreitava o escrutínio das pestanas.
–
Não. Nunca tive um amor assim. – rematou. Não valia a pena tecer conjecturas
sobre factos vivenciados desta e não daquela forma. A verdade é que, por muito
que especulasse ou acreditasse que sentia desta ou daquela maneira, a rejeição,
a negação, aconteceu. A verdade é que a sua disponibilidade para aquele amor
específico lhe foi negada. Nunca se acobardou. Sempre que sentia que era
intenso, forte, que podia ser algo maior, ela desvendava ao outro o seu sentir.
Não olhava a convenções nem a argumentos
de condição. Precipitava-se no que sentia como o alcance da sua vida. E não
alcançava. A fuga ou a recusa, eis as suas respostas. Não lhe importava se
tinham companheira, filhos, trabalho ou actividade irrecusável. Desconsiderava
as circunstâncias perante o que se profetizava como o elixir da sua vida, o
significado que sempre buscara. Ela estendia as cartas na mesa. A resposta?
Não. Sempre não, caramba!
–
Pode ser que…
–
Agora? Sim. Quando for hora, saberei. – interrompeu. Não podia deixar de sentir
inveja de quem gargalhava face ao verdadeiro amor. Por muito que fantasiasse, o
único que lhe havia sido destinado foi a total exclusão por parte de quem, acima
de todos os outros, nunca a deveria ter excluído. E essa era a dor maior.
Saber-se invisível, saber-se completamente dispensável, não merecedora daquela
atenção especial. Transportava naus de lágrimas carcomidas de salitre e de
interrogações “Por que não eu?”. Quando reparava no amor que se passeava de mão
dada pelas ruas, embrenhado em si próprio, deslumbrado nos seus tiques de
ridículo, acotovelava-se de mordeduras entredentes e ponderava “ Mas será mesmo
possível? Que tristes figuras…”. Ainda hoje não sabe se há-de acreditar que
isso existe: isso pois, o verdadeiro amor. O problema? O problema é que andou
lá perto…
Dava
gosto vê-los, ali, detidos, naquele banco de jardim ao pé do campo santo. Ele,
de quando em vez, aclarava-lhe as maçãs do rosto ao alinhar os fios prateados
por detrás das orelhas selvagens, perdurava as mãos naquele ângulo de
enrubescimento, anestesiava as frieiras teimosas por debaixo das luvas que se
recusava a usar quando segurava o olhar de ambos no ínfimo espaço do que cabe
entre duas mãos. E o que cabe entre duas mãos é, possivelmente, o encontro de
duas vidas que se pensam a culminar, mas, de facto, começam naquela precisa
faúlha.
–
Há Outonos que nasceram para ser Primaveras, sabe? – desafiou-a, a língua a
espreitar o rebordo do lábio. Pensou que este era seguramente um desses
Outonos. Não eram grãos de arroz o que caía do alto, era o restolho de folhas
secas, esburacadas, hirtas na cadência vagarosa rumo ao abismo. Porque tudo
nesta vida perde as águas. A humidade das coisas gasta-se. A sério! E o mais
divertido (que de divertido não tem nada) é que os líquidos desperdiçam-se em
tarefas de irrisório. Carradas de litros a escorrer, seiva que se evapora em
cada rosto que chora. Mais adiante compreendemos que derramamos todo o nosso
ser por motivo de nada. E ficamos assim secos e hirtos, incapazes de liquidificar
quando o motivo acontece. Incapazes por não nos restar mais água ou porque é
tarde demais.
Mesmo
assim, as folhas secas e hirtas tocavam-se entre elas, como as pessoas também
se tocam. Já não acreditam, perderam as águas, mas continuam a tocar-se, até
que um dia… As folhas roçavam-se num
início de salpicar de castanhas no lume: umas queimam-se, estorricam-se,
endurecem e não servem p’ra nada a não ser quebrar dentes; outras
entreabrem-se, corpulentas, airosas, e tornam-se saborosas, prazerosas p’ra
quem as degusta. A diferença entre umas e outras está no efeito, de umas
resultam maxilares cerrados e rancores, quiçá esmaltes lascados de outras bocas
abertas até ao céu e guitarras gemidas. Aqueles estouros? Talvez encontros
repentinos que desabrocham em relações estonteantes, estados de choque rangidos
a sorver todos os lamentos e a abafar sortidos de pranto; talvez fogo-de-artifício
a celebrar o amor que ali acontece, naquele banco de jardim à beira do campo
santo. Ela reclinava-se, de todas as vezes, na lã das suas omoplatas.
Embrulhava o antebraço nas palmas das suas mãos e transudava das veias
palpitações fugidias. Pudera ela escrever o que lhe ia no sangue… diabetes,
sim; colesterol, sim; hipertensão, sim; mas não era isso que ela queria
escrever, algo que as análises clínicas ainda não vertem, algo que ela sentia
nas arritmias que pulsavam nele. Seria verdade? Seria mesmo verdade?
–
Ainda não sabe, minha querida? – levantou o sobrolho, astuto na resposta que
era a sua. – Preste atenção, vou contar-lhe, outra vez, para que compreenda
melhor, para que saiba exactamente o que sinto por si. Demore-se. Demore-se por
aqui e escute. Amanhã, se necessário, volto e repito, meu bem, não vá o
Alzheimer tecê-las, combinado?
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