sábado, 22 de novembro de 2014

Não quero tornar-me em algo que nunca aconteceu

Saber que alguém, um dia, vai saber que estive aqui e, de uma forma aproximada, conhecer o que senti, pensei e vivi, faz com que a inevitabilidade da morte se torne numa ideia mais suportável. Que diferença fará, perguntam, quando já não estiveres, que alguém conheça, de uma forma aproximada, o que sentiste, pensaste ou viveste? Sei lá... já não estarei, é certo, mas a minha passagem por aqui valerá por algo que se esquecerá com o tempo e não por algo que nunca aconteceu - acho que é isso. Não quero tornar-me em algo que nunca aconteceu, compreendes? Sentes este amor maior? Quando digo que te amo, é isto: saber que sabes que te aconteci. Não basta dizê-lo, tenho mesmo de escrevê-lo, para que se prolongue no tempo. Que ninguém diga que nunca aconteceu, que tu não digas que nunca aconteceu, está escrito: amo-te, meu amor, sim. Senti no meu tempo, pensei no meu tempo, vivi no meu tempo, e disse-to, e escrevi-o para que não nos tornemos em algo que nunca existiu: amo-te mesmo muito, meu amor, tanto quanto o sentido da existência. Beija-me, agora. É bom que todos pensem que me beijaste mesmo. O sentido da minha existência é um só: o de amar. Sentir que sou amada? Sim, sinto, com menos intensidade do que a necessidade de amar. Talvez até por sentir este menos, ame em todas as direções e ainda mais. O que ganharia eu e perderia o mundo se sentisse em pleno um amor que me bastasse...Com toda a certeza, não teria tempo para o escrever... ou talvez escrevesse, euforicamente, ainda mais, quiçá? Alguém que escreve para que se saiba que sentiu, pensou, viveu, que aconteceu, será porque procurará a plenitude que não teve no seu tempo de vida num extra-tempo, talvez... Uma mordaça no meu pensamento que isto já ultrapassou os limites da boca. Beija-me, agora. É bom que todos saibam que me beijaste mesmo.Não os de agora, os do extra-tempo. Será que também me queres beijar, tu, o do extra-tempo? Não queiras, não sofras por cumplicidade com o registo egoísta da minha alma. Vive o que o teu tempo te dá e permite. O que não existe, não existe mesmo. E eu, este eu contemporâneo, já acabou, findou. Vejo uma mulher tão linda na mesa de trás. Não queres espreitar e beijá-la a ela? Vai, que eu fico feliz.

Conceição Sousa in "FICA"

sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 28



Ela deixou os filhos com a mãe e foi buscá-lo, ao aeroporto. Nem sabia como se comportar. Há uma década que não se viam. Desentenderam-se, tinha a criança de ambos cinco anos. Ele emigrou; ela desesperou e encontrou num outro companheiro o conforto que a sua fragilidade pedia. Uma tranquilidade que só durou um par de anos e da qual resultou mais uma criança. Tinha agora um filho de quinze anos e uma menina de nove. Nada na vida dava certo, a não ser a bênção de ser mãe. Começava a exasperar. “Tinha um filho de cada homem”, o irmão. “Iludiu-se”, o irmão. “Tens de ter juízo agora”, o irmão, “que uma mulher não pode andar por aí a namorar, que já és muito falada, que estás a ser egoísta e a fazer sofrer os pais, e toda a gente sabe”, o irmão, divorciado pela quarta vez e com uma diferente a cada semana. “Há que praticar a Insustentável Leveza do Ser”, mana, “são amigas coloridas, a ser confortadas de três em três semanas que assim não se põem com ideias nem há chatices, amigas coloridas, mas eu sou homem e posso, tu és mulher”.

Conceição Sousa in "FICA"

Capítulo 27


Olha, lá vão eles, lado a lado, o engravatado e o encapuzado, e trocam as voltas ao tempo como trocam as voltas à vida, como trocam as voltas ao bolso – porque, sim, é lá que ambos são amigos, é lá que ambos se encontram, no bolso.

E o encapuzado diz:

            Olha, olha! Repara! É de ouro o colar que traz ao pescoço, é de diamante o anel que lhe cobre o dedo, e de pele a carteira a tiracolo, vamos lá, é grande o dia, mãos ao ar!

E o engravatado reforça:

 Mãos ao ar!

E a septuagenária, amedrontada, pede misericórdia:

 Mas por que me roubais, Santo Cristo? Por que roubais esta pobre em fim de linha? O que me levais é tudo o que consegui de precioso, uma vida de suor, uma vida de trabalho, uma família que não tive, um emprego que me comeu os nós das mãos, uma fome que me soprou a corcunda, Santo Cristo!

O encapuzado atenta nos olhos do engravatado:

É para os meus filhos comerem, Senhora. Minha Rica Senhora, não se zangue, é para os meus filhos comerem. Se tivera filhos, haveria de compreender, minha rica Senhora…

O engravatado pasma na boca do encapuzado:

Cala-te p’raí, ó trapo velho! Já não andas cá a fazer nada. Esse ouro e diamante ficam-me a matar. É p’ra adoçar a boca do gigante do petróleo. Assim, dá-me um lugarzinho lá na firma e eu deixo de contar os tostões. Não falta nada, vou ser o Dr. Manda Chuva, ai que não vou! Manda p’ra cá e bico calado, senão levo-te p’ra choldra por falta de comparecimento!

A septuagenária, que de miopia não tem nada, observa:

 Usas capuz, mas falas com educação e há aí um mais-que-perfeito a indicar que também tens suado, meu querido menino. Pena as más companhias, esse linguajar desse aí de gravata é de quem só conhece o papo para o ar, a preguiça de respirar e as artimanhas das heranças encomendadas, de quem é ensinado a vender os próprios pais pelos próprios.

O engravatado  acotovela o encapuzado:

 Olha, olha agora para aquele lado! Aqueles grisalhos! Estão descalços a jogar as cartas, mas sempre podemos roubar…

O encapuzado não acredita no que está a ouvir:

Roubar?

O engravatado dá um sorriso amarelo:

 Roubar a alegria, pá, roubar a alegria! E pode ser que, se os abanarmos bem, saiam ovos de ouro pelo…

O encapuzado tapa-lhe a boca:

 Não digas mais. Não vês que já nada têm? Estão descalços, pá! A partir daqui, se quiseres, continua sozinho. Eu, por hoje, já me arremedio, já tenho ovos, massa e feijão por mais de um mês. Mas era bom se parasses. Não vês que nem para o caixão?

O engravatado barafusta:

Queres assim, óptimo! Desaparece-me da vista! Eu ainda tenho muita alegria para estourar. Ninguém me pára, ninguém me pára. Tu usas o capuz de vergonha, mas eu não tenho vergonha. Eu uso a gravata de orgulho, é com orgulho que p’ra eles andarem descalços eu uso gravata! E talvez ainda saiam uns ovinhos… Mãos ao ar!

 

Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (já nem me dirijo aos outros acima na hierarquia porque não são de cá, da Terra, humanos, são uma espécie de alienígenas com tiques de pactos de agressividade), a redução do défice e o término da espiral recessiva (que os cidadãos não vivenciam), os vangloriosos resultados a que afirmais a boca cheia teres chegado ( e que os cidadãos não sentem) são à custa de cortes unilaterais e arbitrários nos rendimentos do trabalho ( de agora e de outrora); são à custa do roubo diário da dignidade das famílias ( da felicidade das famílias), da possibilidade de honrarem os seus compromissos, a sua palavra, o seu fio condutor ( perdemos o Norte, sabeis disso?); são à custa de cada vez mais sem-abrigo, de cada vez mais negligência nos cuidados de saúde, na assistência à terceira-idade; são à custa do holocausto do desemprego, da fuga apocalíptica de muitos (aos milhares) da sua nação (uma que sentem como estranguladora, exploratória, implacável no desrespeito pela dignidade humana, gratuita nas injustiças, em pleno corredor da morte quanto à quebra do voto de confiança e dos alicerces da democracia – a tentar perceber como vai acontecer, injecção letal?); são à custa do contínuo assalto fiscal, das desculpas esfarrapadas burocráticas para comer um pouco mais da fome de quem já nada tem ( e tudo serve, até um recibo que alguém esqueceu de guardar – vamos lá ver se o barro cola à parede…); são à custa da machadada certeira nas pernas curtas de muitos trabalhadores independentes ( que ilusão, meu Deus!) que, pese embora a honestidade de o declararem que o são ( nem sempre é assim – e esses têm mais sorte), trabalhadores necessitados de actividade lateral prioritária independente para sobrevivência ao flagelo da ditadura mascarada de democracia, são barbaramente bombardeados com mais assalto aos parcos rendimentos de circunstância que auferem ( “era para tapar aquele buraco, mas, meu amigo, cavei um mais fundo ainda”, dirão agora, com a corda ao pescoço).

Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta ( não quero crer que também sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão sacanear outros!

Dedos erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria reflexiva, instintiva e combativa.

E porque alguém, funcionário precário do Estado ( do Estado, um de direito, quem diria?) há décadas, a ser colocado ora aqui, ora ali, ora acolá, a ser obrigado a endividar-se com os bancos ( pois claro! – se não caminhasse para aí é que seria de estranhar, não?) para comprar fraldas, mantimentos, consultas pediátricas e deslocações, atirar-se de cabeça numa actividade independente ( deixem-no iludir-se…) como botija de oxigénio ( até o ar se paga, não sabeis?) para conseguir continuar a pôr comida na mesa – não sem antes ter de fazer um amplo investimento com possível risco de não retorno ( se bem que numa de não retorno já se encontrava) – e eis que a digníssima Segurança Social, na assinatura da sua diretora, exige um valor mensal soberbo ( ai que vontade de rir, se não fosse para chorar – e até já chorei!) porque há uma mesquinhice propositada legislativa que exige o cumprimento de prazos, exige que alguém que não tem retorno do investimento numa atividade independente pague aquilo que não tem (deixem-me respirar! Ufa! encontrem-me outra botija! Preciso urgentemente de outra botija!...).

Ah!, neste caso não há cruzamento de dados. Há p’ra tudo o resto que seja divinatório de assalto fiscal, mas para reposições de verdades, de cumprimento de obrigações, de contabilização de descontos feitos pelo funcionário do Estado para o Estado, aí fecha-se os olhos às informações internáuticas centrais e vai-se buscar um pormenor  burocrático legislativo, configurado a dedo cirúrgico, para abrir um pouco mais o buraco.

Dedos erguidos! Dedos bem erguidos, bem tesos, para arremessar no papel toda a fúria humana de humanização e existencial! Dedos prontos a denunciar, a não calar, a chafurdar toda esta merda!

Como pode alguém sobreviver a estes ataques constantes e contínuos perpetrados por quem, supostamente, deveria representar o cidadão? A má fé abunda na Casa do Povo que deixou de ser a Casa do Povo.

Exmos. Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta, o país não está a ser capaz de construir porque vós fazeis questão que não seja capaz de construir; vós, com a vossa contínua e alarmante atitude destrutora implacável de direitos básicos consagrados na Constituição, a Lei Fundamental, zeladora dos alicerces da Democracia.

Essa deixou de ser a Casa do Povo e passou a ser a Assembleia da Esquizofrenia.

            Dedos erguidos! Dedos bem tesos, bem erguidos! Se é p’ra entrar na merda, ao menos que valha a pena.

Conceição Sousa in "FICA"

Capítulo 24


 

É com muita tristeza que ouço nas notícias que a taxa de suicídio entre as pessoas de bem, vítimas desta política abraçada ao capital, aumentou exponencialmente. É por isso que a chamo de política criminosa. É com muita tristeza que percebo que o meu ensaio fictício, a minha reflexão demorada sobre as circunstâncias actuais, se torna realidade. Não é preciso ser muito inteligente para perceber ao que nos conduzem estas insistentes escolhas políticas. Já lá estivemos, lembra-se?

– Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora, partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém: ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora, numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia da época em que vivemos. Há a desintegração total. O que se segue a tal abandono? Construção? Não. Desafortunadamente e inevitavelmente, o oposto . Sim, sei, já lá estivemos.

Lamento todas as mortes que têm ocorrido, e ainda as que vão ocorrer, desnecessariamente.

 – Derrubaram-nos os alicerces, mais uma vez, a casa ruiu. Agora, deambulamos por aqui e por ali, sem rumo certo, sem sequer ter a esperança de encontrar um lugar onde erigir de novo um possível ( até da palavra temos medo...) sonho. A única certeza que temos é a de que há um vazio de critérios. Os válidos deixaram de existir. Todas as conquistas foram apagadas. Roubaram-nos a projecção de um futuro, as economias de um passado. Percorremos um terreno pantanoso. Ninguém sabe o que o próximo passo trará, e já ninguém quer saber. A Democracia perdeu-se das suas bases, deixou de o ser. Todos acordam e sabem que deixaram de acreditar. A magia acontecerá no momento em que o povo vir a justiça a tirar a venda e a colocá-la nos pulsos dos que nos usurparam a vida. Só aí poderemos voltar a acreditar, dizem.

É tudo uma questão de vontade política, o tempo de um querer, o ensejo de olhar para as pessoas, o sacrifício de uma vida, que já pagaram a triplicar (em juros) pelas suas casas e, agora, porque as colocaram em dificuldade, vêem-se obrigadas a desistir dos seus projectos, dos seus afectos, das suas memórias, ao entregá-las ao banco. Quem resiste a tamanho golpe?

– Tenho a dizer-lhe que todos os dias recebo uma notícia triste, uma notícia directamente relacionada com a política do nosso governo: alguém próximo que perdeu o emprego, alguém próximo que teve de emigrar, alguém próximo que (por conta dos sucessivos cortes no salário ou reforma) não consegue cumprir os seus compromissos, alguém próximo que está a passar fome, alguém próximo que não consegue pagar a conta da luz, da água, do gás, alguém próximo que perdeu a casa, alguém próximo que não conseguiu tratar o seu problema de saúde e, por isso, faleceu. Digo-lhe, de coração, a minha luta é visível, é diária (como a de todos, suponho eu) e, por vezes, faltam-me as forças. Felizmente, ainda consigo buscar algum ânimo na escrita e espero que a escrita nunca me falhe.

 – Diz-me, de coração… pois quando se tem um, de verdade, o mundo abate-se sobre nós, resisto e luto o mais que posso também; estou aqui p'ra mim e p'ra si, espero que alguém do outro lado, que se saiba mover entre eles, os políticos, os retire rapidamente, pois isto de nação já não tem é nada.
Esta gente não está ao serviço do país. Esta gente põe, descaradamente, o país ao serviço deles. Infelizmente, vivemos uma ditadura mascarada de democracia. E não é de agora. Tirem-nos imediatamente e urgentemente do destino de todos nós. Eu, por mim, faço o que sei: escrevo. Em tempos, até mandei um artigo para o jornal.  Agora, estou velha e cansada.

Conceição Sousa in "FICA"

Capítulo 22


Há que tentar para que o remorso não nos abafe a alma. Pelo menos saberemos que aquele trilho já percorremos e que as vergastadas nas pernas e braços valeram as arritmias. Debalde deixamos de o temer e de o considerar. Sem fôlego, o olhar sorri à escuridão daquele outro carreiro, mais atrás ou mais adiante – este amanheceu de repente, enterneceu a curiosidade, quebraram-se temor e encanto.

Mais um palmo de mundo no mapa da minha busca. A sensação é a mesma de sempre: saciedade e insatisfação: só isto?

Todos caímos – alguns tropeçam, outros são pregados na cruz com rasteiras. Todos caímos –  uns aldrabam a queda, camuflam as feridas, e fingem uma erecção permanente; outros sorriem o elevar de rosto –  é isso que as quedas fazem, quebram-nos nas pernas mas erguem-nos no olhar ( chamo-lhes despertar, ter um vislumbre de céu); outros choram o que caiu e, enquanto se afundam naquele bolor,  verdete de ser que parece não conseguir se libertar do acto de escorregar, esquecem que já estão no chão, e que se estão na lama mais vale besuntarem-se nela, esfregarem-na na cara de todos, e só aí romperem as lágrimas para que lavem a subida na sujidade impregnada no coração dos hipócritas.

Há uma pele luzidia em ti a soerguer-te essa demanda.

E, lembra-te, todos caímos.

 Conceição Sousa in "FICA"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

falta de pão?

 
 
 
 
– Talvez ainda mais importante do que atentar na falta de pão na mesa das famílias é perceber que não há famílias já que consigam, a uma mesma hora, partilhar o que quer que seja em cima de uma mesa. Há-de faltar sempre alguém: ou porque esteja à procura de emprego, ou porque esteja a trabalhar sem qualquer remuneração, ou porque esteja a trabalhar por dois ou três, ou porque esteja emigrado, ou porque esteja simplesmente mal-humorado, ou porque tenha deixado de estar... não há famílias já que se consigam sentar, a uma mesma hora, numa mesma mesa para partilhar o que quer que seja. E esta é a maior tragédia da época em que vivemos.

perdoar a dívida?



Façamos contas: 100. 000 euros de empréstimo à habitação, a 25 anos de pagamento, tendo já passado dez. Uma média de 500 euros mensais de prestação da casa; uma média, nos primeiros sete anos, de 350 euros de pagamento de juros ( a ser meiga…); uma média de 150 euros de juros ( a ser muito meiga…) nos restantes três anos que perfazem a década. Quanto foi cobrado? 60.000 euros. Quanto foi efectivamente pago para a dívida? 25.200 euros. Quanto falta para a totalidade da dívida...? 74. 800 euros. Quanto cobrou o banco para si? 34. 800 euros. Eu repito: apesar da família ter pago ao banco 60.000 euros ( faltando pois 40.000 para perfazer os 100.000), devido à ganância na taxa de juro, na verdade, a família só liquidou 25.200 euros.
Esta família trabalhou, suou, sangrou, cumpriu e entregou 60.000 euros. Então como é? Perdoar a dívida o raio que os parta. Repor a verdade, meus amigos. Repor a verdade. As famílias não devem rigorosamente nada. As famílias não têm de ser perdoadas de rigorosamente nada. Quem deve são os bancos. Quem deve é o Estado. Quem deve é o sistema financeiro, quem deve é o sistema político ( que acoberta e ganha dividendos com as manobras do sistema financeiro). Quem tem de ser perdoado é o sistema financeiro, quem tem de ser perdoado é o sistema político, e ambas as suas ganâncias – mas não aconselho: não é hora de perdoar aos carrascos.
O não termos, ainda, força para destronar um sistema podre e ilícito, não significa que sejamos estúpidos, meus amigos. Não, não somos estúpidos. Sabemos perfeitamente quem deve a quem e quem tem de ser perdoado por quem. Repito: Banca e Estado devem aos cidadãos, devem respeito, devem representatividade, devem honestidade, devem legitimidade, devem humanidade. Banca e Estado têm de ser perdoados pela sua dívida de longa data, a que se juntam juros de mora de longa data, execuções fiscais e penhoras do erário público ainda em cima da mesa, e uma grande hipoteca de humanidade: mas não é hora de perdoar aos carrascos.”

pagadores de impostos


– É preciso que saibam que nos querem conformados e subservientes, nós, os escravos, nós, os metecos pagadores de impostos; e, com jeitinho, nós, as mulheres, fadas do lar. Voltámos ao conceito de cidadania da Grécia antiga? Cuidado! O que será que os governos da actualidade entendem como cidadão? Os velhos? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. Os doentes? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. O cidadão nacional? Não. Convém que emigre, e, já agora, que mande para cá o pastel. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Capítulo 4: Estou a pensar que as manhãs são sempre lindas...


Se eles soubessem como é, não temeriam horrores. Não é anormal aspergir este sabor a iníquo, hissopar uma certa perversidade na cadência de injustiça que me imputam. Por que raios lhes custa a compreender a urgência e até a vitalidade da minha necessidade, da minha existência? Sei. É o aspecto que, na maioria das vezes, dou ao acto, o aspecto. Que importa o aspecto? Não levam eles uma vida, a duração premente de cada um, a descobrir que aparências não conduzem a lado algum? Aparências são aparências. E se a minha evidência fosse bonita – pensa comigo – alguém, alguma vez, valorizaria o outro lado, quando não estou? Não achas que todos me encontrariam até mais cedo e em maior número porque, ao não temerem, deixariam de ser cautelosos, cuidadosos? E impugnariam a estrada, não retirariam prazer algum do veículo.

Se pudessem escutar a estridência das minhas gargalhadas, mesmo ali ao pé, a saber que a decisão do passo no abismo, embora aparente confluir, de facto, trata-se de uma colisão breve, curta, um ímpeto de trampolim na ascensão, na plena apreensão do que treme suores, do que rasga sorrisos, do que incandesce de tanto horizonte.

São inúmeras as ocasiões em que te abraço, subtilmente, e tu entregas-te sem aversão ao meu ombro. Quantas vezes me pedes, baixinho, p’ra te visitar? Apelas ao meu colo o embalo e eu pincelo-te aguarelas de transe, em retiros de mundo. Chamas-lhe o fundo do poço, estar na merda, degustar a fossa – nauseabundo o cheiro, sim. É nessa latência que te abraço e te embaraço, só para que valides as fragrâncias da natureza, aquelas que te envolvem a cada aurora e tu nem farejas. Quando ouves “Levanta-te, vai!”, sou eu, juro-te que sou eu. “Levanta-te e vai auferir o exalar do húmus, o emanar da arborescência. Vai pungir o frio enregelado do orvalho nas horas, escalvar a luxúria das hortas, das folhas teimosas que se quedam nos troncos rugosos, escaldar os teus cumes ( sejam pontas de dedos, nariz, língua ou orelhas) na rotação das estações. Quantas vezes rogas o meu apego só porque escreveste demais, cheiraste demais, falaste demais ou ouviste demais? Só porque há demasiada mão tua, intromissão tua, palavra tua ou coscuvilhice tua no que não te diz respeito. Antes que rastejes no meu embate, percebe que está na tua disposição seguir por outro rumo, o fim da derrocada. E, como vês, a vida ajeita-se a cada fim para que haja um início.

Alterar a realidade, mudar o rumo das coisas, é apenas uma questão de vontade. Se sentes que a tua vida está a ser deitada ao lixo, menosprezada, arrastada para a mais funda das trincheiras, move-te. Move um dedo e faz clique no gosto da opinião com a qual te identificas, move um dedo e faz clique na partilha da opinião com a qual te identificas, move vários dedos e comenta, em jeito de reforço, a opinião com a qual te identificas. Move ambas as mãos e escreve quem tu és, quem tu não aceitas ser, quem tu queres que desapareça do teu trajecto, quem tu abraças e fazes questão de ouvir, de ler, e de beijar todos os dias. Reforça a tua vontade, mas não te fiques pela vontade, tens de te mover para que seja vista, tens de te mover para que seja sentida, tens de te mover para que a tua realidade se altere, para que o rumo das coisas se mova no sentido certo: o teu.

Quando alguém nos engana, dá-se um abalo dentro de nós, é certo... e, abalo após abalo, vamos desconstruindo uma certa ingenuidade feliz. Não devemos, contudo, desistir dessa ingenuidade feliz, devemos aceder a acreditar na pessoa mais adiante – primeiro, não é a mesma pessoa; segundo, está mais adiante; terceiro, até pode ser a mesma pessoa mas mais adiante; quarto, tu és a mesma pessoa mas mais adiante –, e compreender, quem sabe?, a urgência de voltar a sorrir com aquele tijolo inocente que acabamos de colocar. É o que faço. Embora fragilizada; continuo a caminhar no sentido oposto ao da incredulidade. Quero muito poder voltar a acreditar. E, assim como eu, compreendo que o outro caminho também possa ser caos, ser incoerente, estar mais atrás ou mais adiante, querer muito poder voltar a acreditar. É tudo uma questão de disposição. Estás disposto a? Não perdes nada. O mais que te pode acontecer é regressar a este mesmo lugar. E este já conheces. Gostas?

Gostaria que um dia me dissesses que amas esta minha forma ambivalente de amar: tão democrática na escolha que te deixa e tão ditadora na ausência a que te obriga. Não é que não consiga viver um instante sem ti, é que cada instante sem ti só o é porque estás – mas não aqui. E, no final de contas, o que importa mesmo é estar, seja em que lado for, seja sim ou seja não. Estás?

Estou a pensar que as manhãs são sempre lindas, nos oblíquos de rubro e pálido, gélido e cálido, a costurar as penumbras com rebordo a dourado, fragrâncias de chilreares rústicos e cristas de galos a badalar os uivos na locomotiva a grãos de café à chegada dos apeadeiros. Preparado para uma nova viagem?

E há aquelas pessoas que ninguém vê, mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho, sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite, conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências, fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem os vestígios das estações. São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão sempre incansáveis pelo bem da humanidade.

Hoje, na caminhada de sempre, pelos lugares de sempre, com os pés de sempre e os horizontes de sempre, decidi fechar os olhos. Ouvi:

 " Bem-vinda! Finalmente, chegaste."

E, de repente, a pele... o calor da ventania a escancarar a porta da pele. A volta de chave na fechadura, cerrar os olhos, a pele, a porta que sempre ali esteve sem que a visse, abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, cerrar os olhos, nova volta de chave na fechadura, a pele, e o empurrão do vento a lançar-me num salto dentro

"Isso, adiante, é p'ra frente! Vamos juntos, como sempre, eu levo-te."
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca, um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios, o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas:

"Amo-te. Já me vês, agora?"

Sim. Abro os olhos, não estás. Fecho os olhos, nunca deixaste de estar. A chave. A porta. A pele.

Aos olhos foi incumbida a tarefa da distração. Ver é outra coisa.

Onde é que numa vida tão fugaz quanto um relâmpago dá para pensar que algo, alguma vez, pode tornar-se pessoal?

Um dia faço-te uma surpresa. Juro que te faço uma surpresa, querido! Mais uma! Pensas que foi pessoal. Não foi nada de pessoal. Tanto veio como foi e, no preciso instante, para ali que virei. Do ímpeto, nada mais, do ímpeto –  essa sou eu, não sabias? Um dia faço-te uma surpresa, só para que tires essa pedra tão pesada, essa pedra com o meu nome, do teu coração. Um dia. Não agora. Beijo.

A bondade flui, de mim para ti, de ti para mim. Se me tornei, aos teus olhos, numa espécie de mulher boa é porque és, aos meus olhos, uma espécie de homem bom. Se te tornaste, aos meus olhos, num homem bom é porque sou, aos teus olhos, uma mulher boa. E soubemos percorrer ambas as nossas bondades, caminhar com a de outros e receber, de braços abertos, quem nos conhece ou quer conhecer.

Faz-me muita impressão que haja pessoas a estragar tanto tempo da sua vida no encalço de vinganças mesquinhas e lutas estatutárias de poder sobre o que quer que seja –  normalmente lutas vazias de vida. Será que, quando chega a hora do corpo quebrar, do corpo ceder, do corpo acabar, estas pessoas vivem um intenso inferno no ínfimo tempo terminal ao constatarem que, de facto, não viveram? Que desperdiçaram com querelas de nada a sua maior riqueza, a possibilidade de saborearem o estado saudável e pleno de se ser vivo? Olha quem pergunta, como se não soubesse.

Não podemos viver de medos quando a vida se estende sob nós num rubro decorrente de silêncio, de voz. A estrela és tu e cintilas faúlhas benzidas no percurso da vez anímica e singular que é a tua! Não podemos viver mortificados de medos, antecipar a ferocidade do fim em auroras repletas de inícios. Deixa que o medo te ocupe apenas na hora do medo, na hora fatídica do grande medo, o medo resignado do que se sabe que acabou. E mantém segura a lembrança do medo que está por vir para que vivas com coragem e plenitude a vida que te merece sorrir. Cintila as tuas faúlhas rubras e benzidas na estrela que te fizeste de terra, de gravidade, no chão. Ama e pede perdão, ama e pede perdão, ama e estende a mão.

Não desistas, meu amor, não desistas. Soubeste encontrar-me, soubeste entregar-me as tuas lágrimas, a tua dor. Soubeste o caminho até ao meu escutar, até ao meu ombro. Agora, apenas te peço que percebas a mão estendida dos meus lábios entreabertos. Confia no que soubeste até ao toque deles e aceita o meu sopro, o suspiro a entrelaçar a corda do nosso alívio, do nosso reencontro. Não desistas, meu amor, não desistas. Seguro-te nessa corda para que não te engula o teu abismo. Abdico do meu abismo para que me faças escada e trepes até à lua. Ela há-de nos confortar as cólicas e inchar connosco o ventre dos passos que nos aguardam adiante. Não desistas, meu amor, não desistas. Se sabes o caminho até à ternura do nosso tempo, sabes o caminho até ti. Confia e vem. De todas as vezes, receber-te-ei como a de hoje. De todas as vezes. Sempre. Não desistas, meu amor, não desistas de ti – para que não me desista de mim.

Não suportaria a tristeza nos teus olhos. Não é num limbo que estou. É num inferno – enjaulada na incapacidade de não amar.

Comunicar é uma necessidade tão básica e essencial que nunca o deixas de fazer, mesmo quando pensas que por estares calado não falas. Falas sempre, falas constantemente, no fluir contínuo do pensamento, sem lábios, sem língua, sem cordas vocais, sem timbre de voz para os outros, mas com timbre de vós para ti mesmo.

"Está frio",

"Magoaste-me",

"Que bem que me soube esse abraço",

"Sai-me da frente, pá",

"Vai ver se estou na esquina",

"Aleluia, percebeu, até que enfim",

"Tão lindos que eles são,

"Que orgulho ser tua mãe",

"Obrigada, meu Deus, por estas almas que trouxeste até mim",

"Obrigada, meu Deus, por me teres entregado a esta gente tão boa",

" Fazes-me muito feliz"...

É um discurso ininterrupto e contínuo, quer as palavras alcancem a fronteira da boca quer não.

Posso nem te dizer uma palavra, mas isso não significa que não me entristeça por ti nem me alegre por ti –  muito mais até do que muitos outros que te dizem palavras atrás de palavras e mais palavras... Quem não te diz palavras pode nem existir, mas sentir? Sentir é, é sempre: com ou sem palavras. Sentir não se ordena, não se comanda, não se camufla nem se apaga: com ou sem palavras. Sentir é –  até que deixa de ser aquele sentir, até que venha outro sentir, até que... mas nunca até que se comecem as palavras, até que se continuem as palavras, até que se acabem as palavras. Sentir está até que deixa de estar. Sentir fica até que deixa de ficar. Sentir é até que deixa de ser.

Em suma, de nada nos deveria importar o que queremos ou não queremos, apenas deveríamos sorrir perante o que sentimos. Se o sentes é porque é teu, é porque és tu.

Pensas que não sei como o fazer? Pensas que não sei exactamente como o fazer? Não to ensinei? Não vês como depressa lá chegaste? Como depressa ficaste? Como depressa expandiste? Pensas mesmo que não sei exactamente como o fazer? Que não o estou a fazer? A um ritmo que me convém? Pensas? Só não sei ainda como o quero fazer, por que vias ir, das que vejo estendidas p'ra eu passar. Não sei ainda como o quero continuar. E, se não o sei, é porque ainda não é a hora. É aí que eu ouço:

"Não me faças mal, pois eu só te quero é muito bem. Amo-te."

Fica mais um pouco então.



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 3: Quem sou eu? Quem sou eu?


Éramos garotos. Teríamos uns treze anos. Brincávamos à cabra-cega, junto com outras crianças, descalços na rua poeirenta a tanger a espiral nebulosa dos astros. Era ela quem tinha os olhos vendados. Girava sobre si mesma; aguardava, apreensiva, invasões, braços estendidos na horizontal, dedos a tentar palpar o vácuo, a dedilhar o espesso, a apressar o sustentáculo de uma vereda, o alicerce de um muro (ainda que amovível); toques furtivos das outras crianças, e sacudidelas de ombros a cada pressão intrusiva, o ressumar hídrico de gargalhadas longínquas, a salivação de vasos a cada pontapé de estilhaço acidentado, poros desobstruídos a inalar a sensação de estarmos no centro de uma abóbada não vitalícia, em rotação, em movimento giratório à roda do seu eixo fixo ( fixo?): ela.

– Não me empurrem! Empurrar não vale!

– Quem sou eu? Quem sou seu?

– Apalpa, estou aqui, aqui!

– Não! Deste lado, é p’ra este lado!

– Já chega! Estou zonza. Não consigo segurar-te. Ah, agarrei-te! Tu és… não vale fugir!

– Quem sou eu? Quem sou eu?

Curioso… tudo na vida se resume a esta questão “Quem sou eu?” e a indícios de olhos vendados “Quem sou eu?”. Isso: quem és tu?... Sabe, até uma brincadeira de infância me suscita dúvidas, a suspeita de rumor de indicação divina, um boato previamente gravado que fustiga o instante, que se repercute sempre que os dedos estalam o clamor da ocasião; um ensejo reiterado, não suficientemente cicatrizado, em cada inauguração de busca. Seria mais fácil se não lhe percebêssemos este tique de engano, de mensagem pré-definida, se partíssemos simplesmente do vácuo, cada um a granjear a verdade que é a sua. Debalde, provimos de uma armadilha, olhos cercados por dores várias, panos pretos, escuridões profundas que não as nossas. E quando, finalmente, somos capazes de abrir os olhos e ver, sofremos a fractura da fantasia, a imaturidade do que consumimos como real mas que não é significativo de verdade, é apenas uma preparação. As pálpebras deixam de estar cerradas, é verdade; não obstante o mundo ofende e nós tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é mais suportável pressupor o que está mesmo à nossa frente, ser mordiscado aqui e ali por laivos de dor, relâmpagos de unhas a cravarem-nos na carne, lentamente sermos invadidos por fragmentos de medo e não abocanhá-lo completo. Isso seria mortífero. Tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é menos sofrível inventar o desconhecido. Quando somos obrigados a ver, seleccionamos pedaços de conforto: uma brisa que nos cobre de ternura, uma fragrância que nos embala o sono, um coaxar que nos liberta o ímpeto na direcção do sorriso, o rastejar da serpente que descama a pele que já não serve. Quando nos forçam a ver, depois de muitos tragos de graça, pinceladas  de clarões e migalhas de espírito, quando nos abençoam finalmente com o verdadeiro  ver: é tarde demais.

– Quem sou eu? Quem sou eu?

– Ah, apanhei-te! Daqui já não sais. Ora, tu és a…o… – ela indagava e rodava todo o meu corpo no interior das suas frágeis mãos; tacteava o meu rosto como se abrisse um leque de magnólias, era o cheiro da sua voz. – Tu és o…–  Um leque de magnólias a adocicar o tremor inflamado dos meus lábios entreabertos, um leque de magnólias a arrastar para longe todas as facas espetadas no meu peito ( dessas falar-lhe-ei mais tarde, porque aos treze anos já muitas dores  apertavam o meu pescoço); e a temperatura do corpo dela tirava harmonias das minhas cordas vocais, instigava o rubro do sangue a atraiçoar o interior das veias e a entranhar-se nas minhas bochechas. Até a cor do meu sangue afogueava as orelhas na direcção de um ponto de contacto: queria pertencer-lhe. As outras crianças:

– Tomatina! Tomatina! Tomatina!

– Vamos espremer-te! Vamos espremer-te!

– Tomatina! Tomatina!

Tapas-me os olhos, coloco as minhas mãos por sobre as tuas mãos, tacteio-te, sorrindo, só para que se estenda mais um pouco o momento, o nosso momento. O cheiro da tua pele conta-me, naquela fracção de segundo, no começo do toque, quem tu és, não guarda segredo, sussurra-me o teu nome. Encontras-me sempre, e nem te digo onde…

– Tomatina? Já sei! Tomatina só há um: o meu Chapulin Colorado!

Era assim que ela me chamava, sempre que me via, neste caso palpava, envergonhado, de bochechas e orelhas escandecidas: “O meu Chapulin Colorado”… Sabe quem era? Eu explico-lhe: um herói animado, um herói sem dinheiro, sem recursos, sem inventos sensacionais, débil e tonto. Era assim que ela me via, um pé-rapado rúbeo, débil e tonto, e com uma coragem a roçar o ridículo; o herói dela. Chapulin Colorado era uma espécie de anti-herói, satirizava todos aqueles heróis norte-americanos com super-poderes e fazia uma crítica social à América Latina. Chapulin Colorado representava o patriotismo, declarava que os seus defendidos não precisavam de heróis importados. O polegar vermelho indicava a urgência de um herói nacional que, embora fraco, pudesse enfrentar com coragem o individualismo invasor de qualquer superpotência externa. Eu era esse herói: um vesgo, desajeitado, com ares de intelectual, ou vulgo nerd, defensor dos oprimidos. Às vezes, na escola, tinha uma série deles, de mangas arregaçadas e olhar ameaçador, a pendurar-me pelas calças nos cabides à entrada da sala de aula; mesmo assim, apertava os lábios e arreganhava os dentes como os leopardos, e socava o ar com ambos os punhos, energicamente, de bochechas e orelhas enfurecidas, só para ouvir:

– O meu Chapulin Colorado. – murmurou, no meu ouvido, enquanto se amparava nas minhas costas com o abraço de quem sabe que chegou a casa, ao porto de abrigo. – O meu Chapulin Colorado.

Ela tirou a venda e sorriu-me como sempre sorria, com aqueles sorrisos de porta escancarada a dizer “entra”. Nem precisaria de limpar os pés, mas esfregava-os de sobremaneira no tapete e descalçava-me com parcimónia. Para entrar no sorriso dela teria de ser assim, descalço, com uma vénia e um abraço de porto de abrigo. Éramos cúmplices. Todos me gozavam, menos ela. Ela captava o leve entreolhar do meu abismo; ela percebia-me, lá no alto, a ponderar saltos ( não de bungee-jumping, claro; outro tipo de saltos: às vezes para cair, às vezes para planar, às vezes para voar). Ela compreendia o rasgo de diafragma, sempre que o gang do costume me espalmava a mochila, arreganhava no poste ou esparramava cachaços de “nunca!”. Ela entreouvia a minha falta de fôlego. Um dia, abaloei-me de coragem, numa aula de laboratório em Física- Química e disse-lhe:

– Se eu sou o teu Chapulin Colorado, tu és a minha Liesel.

– A tua quê?

– A minha Liesel. Nunca leste o livro de Markus Zusak?

– Markus quem?

– A menina que roubava livros. É o título do livro de Markus Zusak. Essa menina chama-se Liesel.

– Mas eu não roubo livros, só os levo emprestado. Devolvo-os sempre.

– Pensas que não te vi, a tirar um livro da prateleira da mãe do “ai-que-me-dói-aqui”?

– Já te disse. É só emprestado. Quando acabar de ler, devolvo. – retorquiu, já para o aborrecida.

Há-de estar a perguntar-se porque tínhamos um amigo a quem apelidámos de “ai-que-me-dói-aqui”? Parece um pouco cruel, mas não. O “ai-que-me-dói-aqui” era um menino que passava a vida assustado ora com a queda no recreio que lhe deslocava o ombro, ora com a bolada no jogo de futebol que lhe acertava em cheio no olho, ora com a tosse imparável da gripe que lhe massacrava o peito. Em conversa, confidenciou-nos que começou a temer a morte, aos seis anos, quando o seu cachorro morreu. Nem sabia o que isso era: morrer. Só se apercebeu da crueldade em não se estar vivo quando quis, no dia seguinte, pegar no cachorro do ninho e pô-lo na varanda para fazer as suas necessidades matinais e chamou por ele. Repetiu o nome do bicho até à exaustão, sempre à espera de que aquele vazio acabasse, sempre a aguardar a corridinha frenética de quatro patas e a tentativa de trepar pela perna acima, sempre a garantia de que o latido se escutaria de imediato. Não se escutou, não trepou, não correu, nem ninho havia. E os dias que se seguiram foram de uma solidão pesada. P’ra todo o lado que olhasse, era o silêncio. Um silêncio de quatro patas a passear-se no seu rosto, de lambidelas nas suas mãos, de ardor no peito só que não do calor do bicho: “ai-que-me-dói-aqui”, começou, de olhos marejados, o suplício da sua mãe; “ai-que-me-dói-aqui”, prolongou-se a penitência nos maxilares aferroados do seu pai; “ai-que-me-dói-aqui”, arrastava-se o padecimento na resignação da avó; “ai-que-me-dói-aqui”, alastrava-se a compaixão ao protectorado do avô; “ai-que-me-dói-aqui”, enviesavam-se as histórias na multiplicação de pesares que escalavam na comunidade escolar… o luto pelo seu yorkshire terrier foi desastroso, mas necessário. Um dia, em jeito de desabafo e de brincadeira, alguém disse :

– Vamos acabar com as tuas mágoas, amigo. A partir de hoje vamos chamar-te de “ai-que-me-dói-aqui”!

E todos riram, inclusive o “ai-que-me-dói-aqui”. A verdade é que por milagre ele começou a esquecer-se das dores e passou a sorrir muito mais. A minha Liesel não gostou muito da ideia de ser chamada de Liesel, mas depois que lhe contei melhor a história da menina que roubava livros, ela aquiesceu.

– Não é só por isso que te vou chamar de Liesel. É porque és adoptada, como ela foi, e porque canalizas urgências para a literatura. A Liesel lia livros que roubava ou trazia emprestado e ajudava, com os livros, quem precisava da sua amizade a retomar a consciência de si;  mudava  as vidas em redor.

– E tu achas que eu ajudo as pessoas a tomar consciência de si e mudo as vidas em redor, Chapulin?

– Vou responder-te com uma música: Your Song de Elton John, conheces?

– Não, mas tenho a sensação de que vou passar a conhecer. – inquiriu, ao passo que ele buscava no telemóvel o ficheiro da música.

            – Encontrei! Escuta:

And you can tell everybody this is your song,

It may be quite simple, but now that it's done,

I hope you don't mind, I hope you don't mind

that I put down in words,

How wonderful life is while you're in the world.”

Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. – terminou, após ter colocado o fone esquerdo na sua orelha direita e o fone direito na orelha esquerda dela.

            Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. Basicamente era isso. Desde que a minha Liesel estivesse, tudo era aturável, até mesmo o gang das picardias, aquele que me levava à ardência do Colorado, a troca da esquerda com a direita ou a direita com a esquerda.

 

 

 

 

 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulo 2: Nunca teve um grande amor, meu doce?


Encontravam-se, como já há um bouquet de meses o ornavam e com a conivência das estações (sem que disso dois terços de vagar o soubessem), no banco do jardim. Dispunham, ao desatarem as cordas das suas vivências, do trajecto cálido e incipiente até ao cemitério, mesmo ali à beira, a sondar as badaladas de ocasião – isso eles tinham aprendido, que tudo se resume a uma badalada de ocasião: ou é agora ou é nunca. A série ininterrupta de instantes que, quer queiramos quer não, e por muito que tentemos demorar-nos, flui sempre num rio unidirecional imparável de suspiros até ao culminar do nosso sopro. Vicejavam cada etapa de mundo, cada pormenor de longínquo a roçar as areias esvaídas do sonho, no perscrutar dos movimentos soltos, frescos e ondulantes das crianças que brincavam alheias e sorridentes no parque infantil adiante. Uma certa saudade, uma certa revolta, uma certa inveja dos movimentos soltos, frescos e ondulantes.

Será que o vivi mesmo? Será que era eu? Não me reconheço, és-me um estranho nas catacumbas do tempo… Vegetavam com força para que aqueles outros, aqueles muitos outros anteriores a si, não vaporizassem. Não mereciam sofrer prejuízo, dano, ruína, dissipar-se… ai que dor!, pensar que tudo cai na amnésia do esquecimento. Ostentavam-se corpos ténues e combalidos, os que outrora foram e os que agora eram, para que não se perdessem, por culpa ou descuido, contingência ou desgraça (sei lá!), definitivamente no carrocel daquela medida arbitrária de duração das coisas. E quanto tempo urge para que se sinta algo como durável? Haverá mesmo um sentido das coisas? E um sentido das coisas que permaneça? A mim tudo me parece efémero e fugaz, puf!, já foi, aconteceu de acontecido logo deixou de existir – se é que alguma vez existiu de facto. O que é existir? É o que fica, de afável? As crianças. Até ao interregno das memórias. Benditos sejam os anjos que nascem com ímpeto de historiador.

– Isto de malbaratar a vida, amigo, não é do meu feitio. – confessou-lhe, a sua orelha a proteger-se do frio no ombro robusto dele, a mão na orelha dele, a mordiscar-lhe o fresquinho, um hábito que a acompanha desde o biberão. – Não podemos menosprezar o tempo a que já não regressamos, não acha? Há que confidenciar todos os nossos passos, reter a objectiva em locais onde estivemos e a que não voltamos; rebater olhares, trejeitos, sorrisos e lágrimas; diluí-los no apego a um sentido de missão e resgatá-los numa carta, no auricular de um neto, de uma neta, no tactear de um caminho de rugas sensatas e atentas no rosto de um amigo, um que por sinal escreve. – Sorriu, ao de leve, enquanto reclinava a sobrancelha à procura do cintilar de espelho na retina mais acima. – Ouviu-me, não ouviu?

– Sim, minha querida, embora surdo para setenta por cento de mundo vencido, este meu ouvido direito ainda me brinda com uma certa cortesia de me fazer escutar laivos de permanência. E eu adoro, simplesmente adoro, tudo o que me diz. Pena não tê-la conhecido bem lá atrás, esta de agora, quando a pujança ainda me assistia ao tónus muscular. Ainda se arranja qualquer coisinha, filha. – Brincou, ao engelhar a ponta do nariz, como que a perguntar “queres?” – Qualquer, não. Vamos fazer isto direito: a coisinha. Porque é, novamente, “a tal” sabe? Sinto-a como “ a tal”, linda.

– Novamente? – inquiriu, curiosa de saber quantas vidas assomadas de paixão aquele seu actual companheiro furtivo diário de banco de jardim abraçou. Quantas não seria bem o alvo da sua atenção. Talvez, de certeza!, como aquele homem tão cativante e prenhe de intenso as havia beijado. Quem ele era. Quem, lá no âmago, ele era. Porque, à superfície, doía-lhe aquela vontade tardia de ficar quando sabia o campo santo mesmo ali ao pé. Não era justo. Tão tarde. Não era justo. Queria muito ficar.

– Vou contar-lhe o que tanto quer saber. Vou contar-lhe por que me faz lembrar o que sentia quando a tinha por perto, quando a vida me fez saber o nome dela: minha. E assim foi, até ao fim. Minha. Minha. Minha. A minha mulher. A minha linda mulher. A minha vida.

– Deve ser bom ter tido um amor assim. O que eu não daria por ter um amor assim, ai! – admoestou-se, um pouco enciumada. Não sabe se por aquele homem não estar a olhar apenas para si e ter um passado grandioso com o qual não se imaginava sequer com capacidade para competir, ou se por ter a sensação amarga de nunca ter vivido um grande amor. Não quer dizer que não tenha tido os seus amores, que não tenha feito por cuidar deles, preservá-los, que não tenha sido feliz na tranquilidade que sempre, tão racionalmente, calculou. Não ia, contudo, enganar-se. Nunca auferiu de um amor paixão. Nem sabe sequer se teria sido bom. Sentir? Sentiu. Um par de vezes, e só. Sempre fiapos de sol. Ou não foi correspondida. Foi-lhe dito que não era correspondida. Foi-lhe feito sentir que era descartável, que havia alguém acima na hierarquia, alguém prioritário, e que ela não era das que alguma vez pudesse entrar nessa categoria. Ser considerada prioritária. Ou o seu fiapo de sol amainou quando compreendeu a enorme distância que o outro estava das suas expectativas. É certo que, em ambas as ocasiões, sentiu que chegou tarde, sentiu que era amada mas para uma outra vida talvez. Não é que não fosse amada. Sentiu que o era. Até na escalada do prioritário, talvez a prioridade fosse ela, mas a cobardia ou a presunção de quem a amava prioritariamente era maior. Ou a tinham por garantida e escolhiam sempre ir a outro lugar, estar com outras pessoas, envolvidos em outras actividades, porque depois ela estaria no lugar de sempre à espera; ou preferiam não arriscar o abalo daquele impulso, daquela agitação intempestiva, acobardavam-se e deixavam-se estar, confortáveis no amor tranquilo de que usufruíam com outros.

– Nunca teve um grande amor, meu doce? – indagou, perplexo; conseguia perceber o elevado grau de beleza nas feições e na alma da sua companheira de banco de jardim ao pé do campo santo. Parecia-lhe inacreditável que aquela menina de olhos grisalhos ambivalentes, ora cor de floresta em plena monção se o cinzento acoberta o céu, ora cor de mel em pele de avelã se o azul platina em forros dourados, tivesse passado pela vida sem ter sido vista, sem ter sido encantada, sem ter degustado todos os prazeres de um amor cúmplice no fogo e na água. Que coração não estremece quando a tempestade se acerca? E ela carregava cheias fluviais na bruma iodada daquelas íris. Que alma não grita ao toque aveludado do vociferar ternurento? E ela chispava feixes de afeição na candura com que estreitava o escrutínio das pestanas.

– Não. Nunca tive um amor assim. – rematou. Não valia a pena tecer conjecturas sobre factos vivenciados desta e não daquela forma. A verdade é que, por muito que especulasse ou acreditasse que sentia desta ou daquela maneira, a rejeição, a negação, aconteceu. A verdade é que a sua disponibilidade para aquele amor específico lhe foi negada. Nunca se acobardou. Sempre que sentia que era intenso, forte, que podia ser algo maior, ela desvendava ao outro o seu sentir. Não olhava a convenções  nem a argumentos de condição. Precipitava-se no que sentia como o alcance da sua vida. E não alcançava. A fuga ou a recusa, eis as suas respostas. Não lhe importava se tinham companheira, filhos, trabalho ou actividade irrecusável. Desconsiderava as circunstâncias perante o que se profetizava como o elixir da sua vida, o significado que sempre buscara. Ela estendia as cartas na mesa. A resposta? Não. Sempre não, caramba!

– Pode ser que…

– Agora? Sim. Quando for hora, saberei. – interrompeu. Não podia deixar de sentir inveja de quem gargalhava face ao verdadeiro amor. Por muito que fantasiasse, o único que lhe havia sido destinado foi a total exclusão por parte de quem, acima de todos os outros, nunca a deveria ter excluído. E essa era a dor maior. Saber-se invisível, saber-se completamente dispensável, não merecedora daquela atenção especial. Transportava naus de lágrimas carcomidas de salitre e de interrogações “Por que não eu?”. Quando reparava no amor que se passeava de mão dada pelas ruas, embrenhado em si próprio, deslumbrado nos seus tiques de ridículo, acotovelava-se de mordeduras entredentes e ponderava “ Mas será mesmo possível? Que tristes figuras…”. Ainda hoje não sabe se há-de acreditar que isso existe: isso pois, o verdadeiro amor. O problema? O problema é que andou lá perto…

Dava gosto vê-los, ali, detidos, naquele banco de jardim ao pé do campo santo. Ele, de quando em vez, aclarava-lhe as maçãs do rosto ao alinhar os fios prateados por detrás das orelhas selvagens, perdurava as mãos naquele ângulo de enrubescimento, anestesiava as frieiras teimosas por debaixo das luvas que se recusava a usar quando segurava o olhar de ambos no ínfimo espaço do que cabe entre duas mãos. E o que cabe entre duas mãos é, possivelmente, o encontro de duas vidas que se pensam a culminar, mas, de facto, começam naquela precisa faúlha.

– Há Outonos que nasceram para ser Primaveras, sabe? – desafiou-a, a língua a espreitar o rebordo do lábio. Pensou que este era seguramente um desses Outonos. Não eram grãos de arroz o que caía do alto, era o restolho de folhas secas, esburacadas, hirtas na cadência vagarosa rumo ao abismo. Porque tudo nesta vida perde as águas. A humidade das coisas gasta-se. A sério! E o mais divertido (que de divertido não tem nada) é que os líquidos desperdiçam-se em tarefas de irrisório. Carradas de litros a escorrer, seiva que se evapora em cada rosto que chora. Mais adiante compreendemos que derramamos todo o nosso ser por motivo de nada. E ficamos assim secos e hirtos, incapazes de liquidificar quando o motivo acontece. Incapazes por não nos restar mais água ou porque é tarde demais.

Mesmo assim, as folhas secas e hirtas tocavam-se entre elas, como as pessoas também se tocam. Já não acreditam, perderam as águas, mas continuam a tocar-se, até que um dia… As folhas  roçavam-se num início de salpicar de castanhas no lume: umas queimam-se, estorricam-se, endurecem e não servem p’ra nada a não ser quebrar dentes; outras entreabrem-se, corpulentas, airosas, e tornam-se saborosas, prazerosas p’ra quem as degusta. A diferença entre umas e outras está no efeito, de umas resultam maxilares cerrados e rancores, quiçá esmaltes lascados de outras bocas abertas até ao céu e guitarras gemidas. Aqueles estouros? Talvez encontros repentinos que desabrocham em relações estonteantes, estados de choque rangidos a sorver todos os lamentos e a abafar sortidos de pranto; talvez fogo-de-artifício a celebrar o amor que ali acontece, naquele banco de jardim à beira do campo santo. Ela reclinava-se, de todas as vezes, na lã das suas omoplatas. Embrulhava o antebraço nas palmas das suas mãos e transudava das veias palpitações fugidias. Pudera ela escrever o que lhe ia no sangue… diabetes, sim; colesterol, sim; hipertensão, sim; mas não era isso que ela queria escrever, algo que as análises clínicas ainda não vertem, algo que ela sentia nas arritmias que pulsavam nele. Seria verdade? Seria mesmo verdade?

– Ainda não sabe, minha querida? – levantou o sobrolho, astuto na resposta que era a sua. – Preste atenção, vou contar-lhe, outra vez, para que compreenda melhor, para que saiba exactamente o que sinto por si. Demore-se. Demore-se por aqui e escute. Amanhã, se necessário, volto e repito, meu bem, não vá o Alzheimer tecê-las, combinado?