Olha,
lá vão eles, lado a lado, o engravatado e o encapuzado, e trocam as voltas ao
tempo como trocam as voltas à vida, como trocam as voltas ao bolso – porque,
sim, é lá que ambos são amigos, é lá que ambos se encontram, no bolso.
E
o encapuzado diz:
–
Olha,
olha! Repara! É de ouro o colar que traz ao pescoço, é de diamante o anel que
lhe cobre o dedo, e de pele a carteira a tiracolo, vamos lá, é grande o dia,
mãos ao ar!
E
o engravatado reforça:
– Mãos ao ar!
E
a septuagenária, amedrontada, pede misericórdia:
– Mas por que me roubais,
Santo Cristo? Por que roubais esta pobre em fim de linha? O que me levais é
tudo o que consegui de precioso, uma vida de suor, uma vida de trabalho, uma
família que não tive, um emprego que me comeu os nós das mãos, uma fome que me
soprou a corcunda, Santo Cristo!
O
encapuzado atenta nos olhos do engravatado:
–
É para os meus filhos comerem, Senhora. Minha Rica Senhora, não se zangue, é
para os meus filhos comerem. Se tivera filhos, haveria de compreender, minha
rica Senhora…
O
engravatado pasma na boca do encapuzado:
–
Cala-te p’raí, ó trapo velho! Já não andas cá a fazer nada. Esse ouro e
diamante ficam-me a matar. É p’ra adoçar a boca do gigante do petróleo. Assim,
dá-me um lugarzinho lá na firma e eu deixo de contar os tostões. Não falta
nada, vou ser o Dr. Manda Chuva, ai que não vou! Manda p’ra cá e bico calado,
senão levo-te p’ra choldra por falta de comparecimento!
A
septuagenária, que de miopia não tem nada, observa:
– Usas capuz, mas falas
com educação e há aí um mais-que-perfeito a indicar que também tens suado, meu
querido menino. Pena as más companhias, esse linguajar desse aí de gravata é de
quem só conhece o papo para o ar, a preguiça de respirar e as artimanhas das
heranças encomendadas, de quem é ensinado a vender os próprios pais pelos
próprios.
O
engravatado acotovela o encapuzado:
– Olha, olha agora para
aquele lado! Aqueles grisalhos! Estão descalços a jogar as cartas, mas sempre
podemos roubar…
O
encapuzado não acredita no que está a ouvir:
–
Roubar?
O
engravatado dá um sorriso amarelo:
– Roubar a alegria, pá,
roubar a alegria! E pode ser que, se os abanarmos bem, saiam ovos de ouro pelo…
O
encapuzado tapa-lhe a boca:
– Não digas mais. Não vês
que já nada têm? Estão descalços, pá! A partir daqui, se quiseres, continua
sozinho. Eu, por hoje, já me arremedio, já tenho ovos, massa e feijão por mais
de um mês. Mas era bom se parasses. Não vês que nem para o caixão?
O
engravatado barafusta:
–
Queres assim, óptimo! Desaparece-me da vista! Eu ainda tenho muita alegria para
estourar. Ninguém me pára, ninguém me pára. Tu usas o capuz de vergonha, mas eu
não tenho vergonha. Eu uso a gravata de orgulho, é com orgulho que p’ra eles
andarem descalços eu uso gravata! E talvez ainda saiam uns ovinhos… Mãos ao ar!
Srs.
Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (já nem me dirijo aos outros
acima na hierarquia porque não são de cá, da Terra, humanos, são uma espécie de
alienígenas com tiques de pactos de agressividade), a redução do défice e o
término da espiral recessiva (que os cidadãos não vivenciam), os vangloriosos
resultados a que afirmais a boca cheia teres chegado ( e que os cidadãos não
sentem) são à custa de cortes unilaterais e arbitrários nos rendimentos do
trabalho ( de agora e de outrora); são à custa do roubo diário da dignidade das
famílias ( da felicidade das famílias), da possibilidade de honrarem os seus
compromissos, a sua palavra, o seu fio condutor ( perdemos o Norte, sabeis
disso?); são à custa de cada vez mais sem-abrigo, de cada vez mais negligência
nos cuidados de saúde, na assistência à terceira-idade; são à custa do
holocausto do desemprego, da fuga apocalíptica de muitos (aos milhares) da sua
nação (uma que sentem como estranguladora, exploratória, implacável no
desrespeito pela dignidade humana, gratuita nas injustiças, em pleno corredor
da morte quanto à quebra do voto de confiança e dos alicerces da democracia – a
tentar perceber como vai acontecer, injecção letal?); são à custa do contínuo
assalto fiscal, das desculpas esfarrapadas burocráticas para comer um pouco
mais da fome de quem já nada tem ( e tudo serve, até um recibo que alguém
esqueceu de guardar – vamos lá ver se o barro cola à parede…); são à custa da
machadada certeira nas pernas curtas de muitos trabalhadores independentes (
que ilusão, meu Deus!) que, pese embora a honestidade de o declararem que o são
( nem sempre é assim – e esses têm mais sorte), trabalhadores necessitados de
actividade lateral prioritária independente para sobrevivência ao flagelo da
ditadura mascarada de democracia, são barbaramente bombardeados com mais
assalto aos parcos rendimentos de circunstância que auferem ( “era para tapar
aquele buraco, mas, meu amigo, cavei um mais fundo ainda”, dirão agora, com a
corda ao pescoço).
Srs.
Deputados do governo e oposição de faz-de-conta ( não quero crer que também
sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos
de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites
vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo
cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de
prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão
sacanear outros!
Dedos
erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria
reflexiva, instintiva e combativa.
E
porque alguém, funcionário precário do Estado ( do Estado, um de direito, quem diria?)
há décadas, a ser colocado ora aqui, ora ali, ora acolá, a ser obrigado a
endividar-se com os bancos ( pois claro! – se não caminhasse para aí é que
seria de estranhar, não?) para comprar fraldas, mantimentos, consultas
pediátricas e deslocações, atirar-se de cabeça numa actividade independente (
deixem-no iludir-se…) como botija de oxigénio ( até o ar se paga, não sabeis?)
para conseguir continuar a pôr comida na mesa – não sem antes ter de fazer um
amplo investimento com possível risco de não retorno ( se bem que numa de não
retorno já se encontrava) – e eis que a digníssima Segurança Social, na
assinatura da sua diretora, exige um valor mensal soberbo ( ai que vontade de
rir, se não fosse para chorar – e até já chorei!) porque há uma mesquinhice
propositada legislativa que exige o cumprimento de prazos, exige que alguém que
não tem retorno do investimento numa atividade independente pague aquilo que
não tem (deixem-me respirar! Ufa! encontrem-me outra botija! Preciso
urgentemente de outra botija!...).
Ah!,
neste caso não há cruzamento de dados. Há p’ra tudo o resto que seja
divinatório de assalto fiscal, mas para reposições de verdades, de cumprimento
de obrigações, de contabilização de descontos feitos pelo funcionário do Estado
para o Estado, aí fecha-se os olhos às informações internáuticas centrais e
vai-se buscar um pormenor burocrático
legislativo, configurado a dedo cirúrgico, para abrir um pouco mais o buraco.
Dedos
erguidos! Dedos bem erguidos, bem tesos, para arremessar no papel toda a fúria
humana de humanização e existencial! Dedos prontos a denunciar, a não calar, a
chafurdar toda esta merda!
Como
pode alguém sobreviver a estes ataques constantes e contínuos perpetrados por
quem, supostamente, deveria representar o cidadão? A má fé abunda na Casa do
Povo que deixou de ser a Casa do Povo.
Exmos.
Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta, o país não está a ser capaz
de construir porque vós fazeis questão que não seja capaz de construir; vós,
com a vossa contínua e alarmante atitude destrutora implacável de direitos
básicos consagrados na Constituição, a Lei Fundamental, zeladora dos alicerces
da Democracia.
Essa
deixou de ser a Casa do Povo e passou a ser a Assembleia da Esquizofrenia.
Dedos erguidos! Dedos bem tesos, bem
erguidos! Se é p’ra entrar na merda, ao menos que valha a pena.
Conceição Sousa in "FICA"
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