sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 27


Olha, lá vão eles, lado a lado, o engravatado e o encapuzado, e trocam as voltas ao tempo como trocam as voltas à vida, como trocam as voltas ao bolso – porque, sim, é lá que ambos são amigos, é lá que ambos se encontram, no bolso.

E o encapuzado diz:

            Olha, olha! Repara! É de ouro o colar que traz ao pescoço, é de diamante o anel que lhe cobre o dedo, e de pele a carteira a tiracolo, vamos lá, é grande o dia, mãos ao ar!

E o engravatado reforça:

 Mãos ao ar!

E a septuagenária, amedrontada, pede misericórdia:

 Mas por que me roubais, Santo Cristo? Por que roubais esta pobre em fim de linha? O que me levais é tudo o que consegui de precioso, uma vida de suor, uma vida de trabalho, uma família que não tive, um emprego que me comeu os nós das mãos, uma fome que me soprou a corcunda, Santo Cristo!

O encapuzado atenta nos olhos do engravatado:

É para os meus filhos comerem, Senhora. Minha Rica Senhora, não se zangue, é para os meus filhos comerem. Se tivera filhos, haveria de compreender, minha rica Senhora…

O engravatado pasma na boca do encapuzado:

Cala-te p’raí, ó trapo velho! Já não andas cá a fazer nada. Esse ouro e diamante ficam-me a matar. É p’ra adoçar a boca do gigante do petróleo. Assim, dá-me um lugarzinho lá na firma e eu deixo de contar os tostões. Não falta nada, vou ser o Dr. Manda Chuva, ai que não vou! Manda p’ra cá e bico calado, senão levo-te p’ra choldra por falta de comparecimento!

A septuagenária, que de miopia não tem nada, observa:

 Usas capuz, mas falas com educação e há aí um mais-que-perfeito a indicar que também tens suado, meu querido menino. Pena as más companhias, esse linguajar desse aí de gravata é de quem só conhece o papo para o ar, a preguiça de respirar e as artimanhas das heranças encomendadas, de quem é ensinado a vender os próprios pais pelos próprios.

O engravatado  acotovela o encapuzado:

 Olha, olha agora para aquele lado! Aqueles grisalhos! Estão descalços a jogar as cartas, mas sempre podemos roubar…

O encapuzado não acredita no que está a ouvir:

Roubar?

O engravatado dá um sorriso amarelo:

 Roubar a alegria, pá, roubar a alegria! E pode ser que, se os abanarmos bem, saiam ovos de ouro pelo…

O encapuzado tapa-lhe a boca:

 Não digas mais. Não vês que já nada têm? Estão descalços, pá! A partir daqui, se quiseres, continua sozinho. Eu, por hoje, já me arremedio, já tenho ovos, massa e feijão por mais de um mês. Mas era bom se parasses. Não vês que nem para o caixão?

O engravatado barafusta:

Queres assim, óptimo! Desaparece-me da vista! Eu ainda tenho muita alegria para estourar. Ninguém me pára, ninguém me pára. Tu usas o capuz de vergonha, mas eu não tenho vergonha. Eu uso a gravata de orgulho, é com orgulho que p’ra eles andarem descalços eu uso gravata! E talvez ainda saiam uns ovinhos… Mãos ao ar!

 

Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (já nem me dirijo aos outros acima na hierarquia porque não são de cá, da Terra, humanos, são uma espécie de alienígenas com tiques de pactos de agressividade), a redução do défice e o término da espiral recessiva (que os cidadãos não vivenciam), os vangloriosos resultados a que afirmais a boca cheia teres chegado ( e que os cidadãos não sentem) são à custa de cortes unilaterais e arbitrários nos rendimentos do trabalho ( de agora e de outrora); são à custa do roubo diário da dignidade das famílias ( da felicidade das famílias), da possibilidade de honrarem os seus compromissos, a sua palavra, o seu fio condutor ( perdemos o Norte, sabeis disso?); são à custa de cada vez mais sem-abrigo, de cada vez mais negligência nos cuidados de saúde, na assistência à terceira-idade; são à custa do holocausto do desemprego, da fuga apocalíptica de muitos (aos milhares) da sua nação (uma que sentem como estranguladora, exploratória, implacável no desrespeito pela dignidade humana, gratuita nas injustiças, em pleno corredor da morte quanto à quebra do voto de confiança e dos alicerces da democracia – a tentar perceber como vai acontecer, injecção letal?); são à custa do contínuo assalto fiscal, das desculpas esfarrapadas burocráticas para comer um pouco mais da fome de quem já nada tem ( e tudo serve, até um recibo que alguém esqueceu de guardar – vamos lá ver se o barro cola à parede…); são à custa da machadada certeira nas pernas curtas de muitos trabalhadores independentes ( que ilusão, meu Deus!) que, pese embora a honestidade de o declararem que o são ( nem sempre é assim – e esses têm mais sorte), trabalhadores necessitados de actividade lateral prioritária independente para sobrevivência ao flagelo da ditadura mascarada de democracia, são barbaramente bombardeados com mais assalto aos parcos rendimentos de circunstância que auferem ( “era para tapar aquele buraco, mas, meu amigo, cavei um mais fundo ainda”, dirão agora, com a corda ao pescoço).

Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta ( não quero crer que também sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão sacanear outros!

Dedos erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria reflexiva, instintiva e combativa.

E porque alguém, funcionário precário do Estado ( do Estado, um de direito, quem diria?) há décadas, a ser colocado ora aqui, ora ali, ora acolá, a ser obrigado a endividar-se com os bancos ( pois claro! – se não caminhasse para aí é que seria de estranhar, não?) para comprar fraldas, mantimentos, consultas pediátricas e deslocações, atirar-se de cabeça numa actividade independente ( deixem-no iludir-se…) como botija de oxigénio ( até o ar se paga, não sabeis?) para conseguir continuar a pôr comida na mesa – não sem antes ter de fazer um amplo investimento com possível risco de não retorno ( se bem que numa de não retorno já se encontrava) – e eis que a digníssima Segurança Social, na assinatura da sua diretora, exige um valor mensal soberbo ( ai que vontade de rir, se não fosse para chorar – e até já chorei!) porque há uma mesquinhice propositada legislativa que exige o cumprimento de prazos, exige que alguém que não tem retorno do investimento numa atividade independente pague aquilo que não tem (deixem-me respirar! Ufa! encontrem-me outra botija! Preciso urgentemente de outra botija!...).

Ah!, neste caso não há cruzamento de dados. Há p’ra tudo o resto que seja divinatório de assalto fiscal, mas para reposições de verdades, de cumprimento de obrigações, de contabilização de descontos feitos pelo funcionário do Estado para o Estado, aí fecha-se os olhos às informações internáuticas centrais e vai-se buscar um pormenor  burocrático legislativo, configurado a dedo cirúrgico, para abrir um pouco mais o buraco.

Dedos erguidos! Dedos bem erguidos, bem tesos, para arremessar no papel toda a fúria humana de humanização e existencial! Dedos prontos a denunciar, a não calar, a chafurdar toda esta merda!

Como pode alguém sobreviver a estes ataques constantes e contínuos perpetrados por quem, supostamente, deveria representar o cidadão? A má fé abunda na Casa do Povo que deixou de ser a Casa do Povo.

Exmos. Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta, o país não está a ser capaz de construir porque vós fazeis questão que não seja capaz de construir; vós, com a vossa contínua e alarmante atitude destrutora implacável de direitos básicos consagrados na Constituição, a Lei Fundamental, zeladora dos alicerces da Democracia.

Essa deixou de ser a Casa do Povo e passou a ser a Assembleia da Esquizofrenia.

            Dedos erguidos! Dedos bem tesos, bem erguidos! Se é p’ra entrar na merda, ao menos que valha a pena.

Conceição Sousa in "FICA"

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