quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 3: Quem sou eu? Quem sou eu?


Éramos garotos. Teríamos uns treze anos. Brincávamos à cabra-cega, junto com outras crianças, descalços na rua poeirenta a tanger a espiral nebulosa dos astros. Era ela quem tinha os olhos vendados. Girava sobre si mesma; aguardava, apreensiva, invasões, braços estendidos na horizontal, dedos a tentar palpar o vácuo, a dedilhar o espesso, a apressar o sustentáculo de uma vereda, o alicerce de um muro (ainda que amovível); toques furtivos das outras crianças, e sacudidelas de ombros a cada pressão intrusiva, o ressumar hídrico de gargalhadas longínquas, a salivação de vasos a cada pontapé de estilhaço acidentado, poros desobstruídos a inalar a sensação de estarmos no centro de uma abóbada não vitalícia, em rotação, em movimento giratório à roda do seu eixo fixo ( fixo?): ela.

– Não me empurrem! Empurrar não vale!

– Quem sou eu? Quem sou seu?

– Apalpa, estou aqui, aqui!

– Não! Deste lado, é p’ra este lado!

– Já chega! Estou zonza. Não consigo segurar-te. Ah, agarrei-te! Tu és… não vale fugir!

– Quem sou eu? Quem sou eu?

Curioso… tudo na vida se resume a esta questão “Quem sou eu?” e a indícios de olhos vendados “Quem sou eu?”. Isso: quem és tu?... Sabe, até uma brincadeira de infância me suscita dúvidas, a suspeita de rumor de indicação divina, um boato previamente gravado que fustiga o instante, que se repercute sempre que os dedos estalam o clamor da ocasião; um ensejo reiterado, não suficientemente cicatrizado, em cada inauguração de busca. Seria mais fácil se não lhe percebêssemos este tique de engano, de mensagem pré-definida, se partíssemos simplesmente do vácuo, cada um a granjear a verdade que é a sua. Debalde, provimos de uma armadilha, olhos cercados por dores várias, panos pretos, escuridões profundas que não as nossas. E quando, finalmente, somos capazes de abrir os olhos e ver, sofremos a fractura da fantasia, a imaturidade do que consumimos como real mas que não é significativo de verdade, é apenas uma preparação. As pálpebras deixam de estar cerradas, é verdade; não obstante o mundo ofende e nós tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é mais suportável pressupor o que está mesmo à nossa frente, ser mordiscado aqui e ali por laivos de dor, relâmpagos de unhas a cravarem-nos na carne, lentamente sermos invadidos por fragmentos de medo e não abocanhá-lo completo. Isso seria mortífero. Tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é menos sofrível inventar o desconhecido. Quando somos obrigados a ver, seleccionamos pedaços de conforto: uma brisa que nos cobre de ternura, uma fragrância que nos embala o sono, um coaxar que nos liberta o ímpeto na direcção do sorriso, o rastejar da serpente que descama a pele que já não serve. Quando nos forçam a ver, depois de muitos tragos de graça, pinceladas  de clarões e migalhas de espírito, quando nos abençoam finalmente com o verdadeiro  ver: é tarde demais.

– Quem sou eu? Quem sou eu?

– Ah, apanhei-te! Daqui já não sais. Ora, tu és a…o… – ela indagava e rodava todo o meu corpo no interior das suas frágeis mãos; tacteava o meu rosto como se abrisse um leque de magnólias, era o cheiro da sua voz. – Tu és o…–  Um leque de magnólias a adocicar o tremor inflamado dos meus lábios entreabertos, um leque de magnólias a arrastar para longe todas as facas espetadas no meu peito ( dessas falar-lhe-ei mais tarde, porque aos treze anos já muitas dores  apertavam o meu pescoço); e a temperatura do corpo dela tirava harmonias das minhas cordas vocais, instigava o rubro do sangue a atraiçoar o interior das veias e a entranhar-se nas minhas bochechas. Até a cor do meu sangue afogueava as orelhas na direcção de um ponto de contacto: queria pertencer-lhe. As outras crianças:

– Tomatina! Tomatina! Tomatina!

– Vamos espremer-te! Vamos espremer-te!

– Tomatina! Tomatina!

Tapas-me os olhos, coloco as minhas mãos por sobre as tuas mãos, tacteio-te, sorrindo, só para que se estenda mais um pouco o momento, o nosso momento. O cheiro da tua pele conta-me, naquela fracção de segundo, no começo do toque, quem tu és, não guarda segredo, sussurra-me o teu nome. Encontras-me sempre, e nem te digo onde…

– Tomatina? Já sei! Tomatina só há um: o meu Chapulin Colorado!

Era assim que ela me chamava, sempre que me via, neste caso palpava, envergonhado, de bochechas e orelhas escandecidas: “O meu Chapulin Colorado”… Sabe quem era? Eu explico-lhe: um herói animado, um herói sem dinheiro, sem recursos, sem inventos sensacionais, débil e tonto. Era assim que ela me via, um pé-rapado rúbeo, débil e tonto, e com uma coragem a roçar o ridículo; o herói dela. Chapulin Colorado era uma espécie de anti-herói, satirizava todos aqueles heróis norte-americanos com super-poderes e fazia uma crítica social à América Latina. Chapulin Colorado representava o patriotismo, declarava que os seus defendidos não precisavam de heróis importados. O polegar vermelho indicava a urgência de um herói nacional que, embora fraco, pudesse enfrentar com coragem o individualismo invasor de qualquer superpotência externa. Eu era esse herói: um vesgo, desajeitado, com ares de intelectual, ou vulgo nerd, defensor dos oprimidos. Às vezes, na escola, tinha uma série deles, de mangas arregaçadas e olhar ameaçador, a pendurar-me pelas calças nos cabides à entrada da sala de aula; mesmo assim, apertava os lábios e arreganhava os dentes como os leopardos, e socava o ar com ambos os punhos, energicamente, de bochechas e orelhas enfurecidas, só para ouvir:

– O meu Chapulin Colorado. – murmurou, no meu ouvido, enquanto se amparava nas minhas costas com o abraço de quem sabe que chegou a casa, ao porto de abrigo. – O meu Chapulin Colorado.

Ela tirou a venda e sorriu-me como sempre sorria, com aqueles sorrisos de porta escancarada a dizer “entra”. Nem precisaria de limpar os pés, mas esfregava-os de sobremaneira no tapete e descalçava-me com parcimónia. Para entrar no sorriso dela teria de ser assim, descalço, com uma vénia e um abraço de porto de abrigo. Éramos cúmplices. Todos me gozavam, menos ela. Ela captava o leve entreolhar do meu abismo; ela percebia-me, lá no alto, a ponderar saltos ( não de bungee-jumping, claro; outro tipo de saltos: às vezes para cair, às vezes para planar, às vezes para voar). Ela compreendia o rasgo de diafragma, sempre que o gang do costume me espalmava a mochila, arreganhava no poste ou esparramava cachaços de “nunca!”. Ela entreouvia a minha falta de fôlego. Um dia, abaloei-me de coragem, numa aula de laboratório em Física- Química e disse-lhe:

– Se eu sou o teu Chapulin Colorado, tu és a minha Liesel.

– A tua quê?

– A minha Liesel. Nunca leste o livro de Markus Zusak?

– Markus quem?

– A menina que roubava livros. É o título do livro de Markus Zusak. Essa menina chama-se Liesel.

– Mas eu não roubo livros, só os levo emprestado. Devolvo-os sempre.

– Pensas que não te vi, a tirar um livro da prateleira da mãe do “ai-que-me-dói-aqui”?

– Já te disse. É só emprestado. Quando acabar de ler, devolvo. – retorquiu, já para o aborrecida.

Há-de estar a perguntar-se porque tínhamos um amigo a quem apelidámos de “ai-que-me-dói-aqui”? Parece um pouco cruel, mas não. O “ai-que-me-dói-aqui” era um menino que passava a vida assustado ora com a queda no recreio que lhe deslocava o ombro, ora com a bolada no jogo de futebol que lhe acertava em cheio no olho, ora com a tosse imparável da gripe que lhe massacrava o peito. Em conversa, confidenciou-nos que começou a temer a morte, aos seis anos, quando o seu cachorro morreu. Nem sabia o que isso era: morrer. Só se apercebeu da crueldade em não se estar vivo quando quis, no dia seguinte, pegar no cachorro do ninho e pô-lo na varanda para fazer as suas necessidades matinais e chamou por ele. Repetiu o nome do bicho até à exaustão, sempre à espera de que aquele vazio acabasse, sempre a aguardar a corridinha frenética de quatro patas e a tentativa de trepar pela perna acima, sempre a garantia de que o latido se escutaria de imediato. Não se escutou, não trepou, não correu, nem ninho havia. E os dias que se seguiram foram de uma solidão pesada. P’ra todo o lado que olhasse, era o silêncio. Um silêncio de quatro patas a passear-se no seu rosto, de lambidelas nas suas mãos, de ardor no peito só que não do calor do bicho: “ai-que-me-dói-aqui”, começou, de olhos marejados, o suplício da sua mãe; “ai-que-me-dói-aqui”, prolongou-se a penitência nos maxilares aferroados do seu pai; “ai-que-me-dói-aqui”, arrastava-se o padecimento na resignação da avó; “ai-que-me-dói-aqui”, alastrava-se a compaixão ao protectorado do avô; “ai-que-me-dói-aqui”, enviesavam-se as histórias na multiplicação de pesares que escalavam na comunidade escolar… o luto pelo seu yorkshire terrier foi desastroso, mas necessário. Um dia, em jeito de desabafo e de brincadeira, alguém disse :

– Vamos acabar com as tuas mágoas, amigo. A partir de hoje vamos chamar-te de “ai-que-me-dói-aqui”!

E todos riram, inclusive o “ai-que-me-dói-aqui”. A verdade é que por milagre ele começou a esquecer-se das dores e passou a sorrir muito mais. A minha Liesel não gostou muito da ideia de ser chamada de Liesel, mas depois que lhe contei melhor a história da menina que roubava livros, ela aquiesceu.

– Não é só por isso que te vou chamar de Liesel. É porque és adoptada, como ela foi, e porque canalizas urgências para a literatura. A Liesel lia livros que roubava ou trazia emprestado e ajudava, com os livros, quem precisava da sua amizade a retomar a consciência de si;  mudava  as vidas em redor.

– E tu achas que eu ajudo as pessoas a tomar consciência de si e mudo as vidas em redor, Chapulin?

– Vou responder-te com uma música: Your Song de Elton John, conheces?

– Não, mas tenho a sensação de que vou passar a conhecer. – inquiriu, ao passo que ele buscava no telemóvel o ficheiro da música.

            – Encontrei! Escuta:

And you can tell everybody this is your song,

It may be quite simple, but now that it's done,

I hope you don't mind, I hope you don't mind

that I put down in words,

How wonderful life is while you're in the world.”

Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. – terminou, após ter colocado o fone esquerdo na sua orelha direita e o fone direito na orelha esquerda dela.

            Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. Basicamente era isso. Desde que a minha Liesel estivesse, tudo era aturável, até mesmo o gang das picardias, aquele que me levava à ardência do Colorado, a troca da esquerda com a direita ou a direita com a esquerda.

 

 

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário