Éramos
garotos. Teríamos uns treze anos. Brincávamos à cabra-cega, junto com outras
crianças, descalços na rua poeirenta a tanger a espiral nebulosa dos astros. Era
ela quem tinha os olhos vendados. Girava sobre si mesma; aguardava, apreensiva,
invasões, braços estendidos na horizontal, dedos a tentar palpar o vácuo, a
dedilhar o espesso, a apressar o sustentáculo de uma vereda, o alicerce de um
muro (ainda que amovível); toques furtivos das outras crianças, e sacudidelas
de ombros a cada pressão intrusiva, o ressumar hídrico de gargalhadas
longínquas, a salivação de vasos a cada pontapé de estilhaço acidentado, poros
desobstruídos a inalar a sensação de estarmos no centro de uma abóbada não
vitalícia, em rotação, em movimento giratório à roda do seu eixo fixo ( fixo?):
ela.
–
Não me empurrem! Empurrar não vale!
–
Quem sou eu? Quem sou seu?
–
Apalpa, estou aqui, aqui!
–
Não! Deste lado, é p’ra este lado!
–
Já chega! Estou zonza. Não consigo segurar-te. Ah, agarrei-te! Tu és… não vale
fugir!
–
Quem sou eu? Quem sou eu?
Curioso…
tudo na vida se resume a esta questão “Quem sou eu?” e a indícios de olhos
vendados “Quem sou eu?”. Isso: quem és tu?... Sabe, até uma brincadeira de
infância me suscita dúvidas, a suspeita de rumor de indicação divina, um boato
previamente gravado que fustiga o instante, que se repercute sempre que os
dedos estalam o clamor da ocasião; um ensejo reiterado, não suficientemente
cicatrizado, em cada inauguração de busca. Seria mais fácil se não lhe
percebêssemos este tique de engano, de mensagem pré-definida, se partíssemos
simplesmente do vácuo, cada um a granjear a verdade que é a sua. Debalde, provimos
de uma armadilha, olhos cercados por dores várias, panos pretos, escuridões
profundas que não as nossas. E quando, finalmente, somos capazes de abrir os
olhos e ver, sofremos a fractura da fantasia, a imaturidade do que consumimos
como real mas que não é significativo de verdade, é apenas uma preparação. As
pálpebras deixam de estar cerradas, é verdade; não obstante o mundo ofende e
nós tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é mais suportável
pressupor o que está mesmo à nossa frente, ser mordiscado aqui e ali por laivos
de dor, relâmpagos de unhas a cravarem-nos na carne, lentamente sermos
invadidos por fragmentos de medo e não abocanhá-lo completo. Isso seria
mortífero. Tendemos a regressar inúmeras vezes aos olhos vendados, é menos
sofrível inventar o desconhecido. Quando somos obrigados a ver, seleccionamos
pedaços de conforto: uma brisa que nos cobre de ternura, uma fragrância que nos
embala o sono, um coaxar que nos liberta o ímpeto na direcção do sorriso, o rastejar
da serpente que descama a pele que já não serve. Quando nos forçam a ver,
depois de muitos tragos de graça, pinceladas
de clarões e migalhas de espírito, quando nos abençoam finalmente com o
verdadeiro ver: é tarde demais.
–
Quem sou eu? Quem sou eu?
–
Ah, apanhei-te! Daqui já não sais. Ora, tu és a…o… – ela indagava e rodava todo
o meu corpo no interior das suas frágeis mãos; tacteava o meu rosto como se
abrisse um leque de magnólias, era o cheiro da sua voz. – Tu és o…– Um leque de magnólias a adocicar o tremor
inflamado dos meus lábios entreabertos, um leque de magnólias a arrastar para
longe todas as facas espetadas no meu peito ( dessas falar-lhe-ei mais tarde,
porque aos treze anos já muitas dores apertavam o meu pescoço); e a temperatura do
corpo dela tirava harmonias das minhas cordas vocais, instigava o rubro do
sangue a atraiçoar o interior das veias e a entranhar-se nas minhas bochechas.
Até a cor do meu sangue afogueava as orelhas na direcção de um ponto de
contacto: queria pertencer-lhe. As outras crianças:
–
Tomatina! Tomatina! Tomatina!
–
Vamos espremer-te! Vamos espremer-te!
–
Tomatina! Tomatina!
Tapas-me os olhos, coloco as minhas
mãos por sobre as tuas mãos, tacteio-te, sorrindo, só para que se estenda mais
um pouco o momento, o nosso momento. O cheiro da tua pele conta-me, naquela
fracção de segundo, no começo do toque, quem tu és, não guarda segredo,
sussurra-me o teu nome. Encontras-me sempre, e nem te digo onde…
–
Tomatina? Já sei! Tomatina só há um: o meu Chapulin Colorado!
Era
assim que ela me chamava, sempre que me via, neste caso palpava, envergonhado,
de bochechas e orelhas escandecidas: “O meu Chapulin Colorado”… Sabe quem era?
Eu explico-lhe: um herói animado, um herói sem dinheiro, sem recursos, sem
inventos sensacionais, débil e tonto. Era assim que ela me via, um pé-rapado
rúbeo, débil e tonto, e com uma coragem a roçar o ridículo; o herói dela. Chapulin
Colorado era uma espécie de anti-herói, satirizava todos aqueles heróis norte-americanos
com super-poderes e fazia uma crítica social à América Latina. Chapulin
Colorado representava o patriotismo, declarava que os seus defendidos não
precisavam de heróis importados. O polegar vermelho indicava a urgência de um
herói nacional que, embora fraco, pudesse enfrentar com coragem o
individualismo invasor de qualquer superpotência externa. Eu era esse herói: um
vesgo, desajeitado, com ares de intelectual, ou vulgo nerd, defensor dos
oprimidos. Às vezes, na escola, tinha uma série deles, de mangas arregaçadas e
olhar ameaçador, a pendurar-me pelas calças nos cabides à entrada da sala de
aula; mesmo assim, apertava os lábios e arreganhava os dentes como os
leopardos, e socava o ar com ambos os punhos, energicamente, de bochechas e orelhas
enfurecidas, só para ouvir:
–
O meu Chapulin Colorado. – murmurou, no meu ouvido, enquanto se amparava nas
minhas costas com o abraço de quem sabe que chegou a casa, ao porto de abrigo.
– O meu Chapulin Colorado.
Ela
tirou a venda e sorriu-me como sempre sorria, com aqueles sorrisos de porta
escancarada a dizer “entra”. Nem precisaria de limpar os pés, mas esfregava-os
de sobremaneira no tapete e descalçava-me com parcimónia. Para entrar no
sorriso dela teria de ser assim, descalço, com uma vénia e um abraço de porto
de abrigo. Éramos cúmplices. Todos me gozavam, menos ela. Ela captava o leve
entreolhar do meu abismo; ela percebia-me, lá no alto, a ponderar saltos ( não
de bungee-jumping, claro; outro tipo de saltos: às vezes para cair, às vezes
para planar, às vezes para voar). Ela compreendia o rasgo de diafragma, sempre
que o gang do costume me espalmava a mochila, arreganhava no poste ou
esparramava cachaços de “nunca!”. Ela entreouvia a minha falta de fôlego. Um
dia, abaloei-me de coragem, numa aula de laboratório em Física- Química e
disse-lhe:
–
Se eu sou o teu Chapulin Colorado, tu és a minha Liesel.
–
A tua quê?
–
A minha Liesel. Nunca leste o livro de Markus Zusak?
–
Markus quem?
–
A menina que roubava livros. É o título do livro de Markus Zusak. Essa menina
chama-se Liesel.
–
Mas eu não roubo livros, só os levo emprestado. Devolvo-os sempre.
–
Pensas que não te vi, a tirar um livro da prateleira da mãe do
“ai-que-me-dói-aqui”?
–
Já te disse. É só emprestado. Quando acabar de ler, devolvo. – retorquiu, já
para o aborrecida.
Há-de
estar a perguntar-se porque tínhamos um amigo a quem apelidámos de
“ai-que-me-dói-aqui”? Parece um pouco cruel, mas não. O “ai-que-me-dói-aqui”
era um menino que passava a vida assustado ora com a queda no recreio que lhe
deslocava o ombro, ora com a bolada no jogo de futebol que lhe acertava em
cheio no olho, ora com a tosse imparável da gripe que lhe massacrava o peito.
Em conversa, confidenciou-nos que começou a temer a morte, aos seis anos,
quando o seu cachorro morreu. Nem sabia o que isso era: morrer. Só se apercebeu
da crueldade em não se estar vivo quando quis, no dia seguinte, pegar no
cachorro do ninho e pô-lo na varanda para fazer as suas necessidades matinais e
chamou por ele. Repetiu o nome do bicho até à exaustão, sempre à espera de que
aquele vazio acabasse, sempre a aguardar a corridinha frenética de quatro patas
e a tentativa de trepar pela perna acima, sempre a garantia de que o latido se
escutaria de imediato. Não se escutou, não trepou, não correu, nem ninho havia.
E os dias que se seguiram foram de uma solidão pesada. P’ra todo o lado que
olhasse, era o silêncio. Um silêncio de quatro patas a passear-se no seu rosto,
de lambidelas nas suas mãos, de ardor no peito só que não do calor do bicho:
“ai-que-me-dói-aqui”, começou, de olhos marejados, o suplício da sua mãe;
“ai-que-me-dói-aqui”, prolongou-se a penitência nos maxilares aferroados do seu
pai; “ai-que-me-dói-aqui”, arrastava-se o padecimento na resignação da avó;
“ai-que-me-dói-aqui”, alastrava-se a compaixão ao protectorado do avô;
“ai-que-me-dói-aqui”, enviesavam-se as histórias na multiplicação de pesares
que escalavam na comunidade escolar… o luto pelo seu yorkshire terrier foi desastroso,
mas necessário. Um dia, em jeito de desabafo e de brincadeira, alguém disse :
–
Vamos acabar com as tuas mágoas, amigo. A partir de hoje vamos chamar-te de
“ai-que-me-dói-aqui”!
E
todos riram, inclusive o “ai-que-me-dói-aqui”. A verdade é que por milagre ele
começou a esquecer-se das dores e passou a sorrir muito mais. A minha Liesel
não gostou muito da ideia de ser chamada de Liesel, mas depois que lhe contei
melhor a história da menina que roubava livros, ela aquiesceu.
–
Não é só por isso que te vou chamar de Liesel. É porque és adoptada, como ela foi,
e porque canalizas urgências para a literatura. A Liesel lia livros que roubava
ou trazia emprestado e ajudava, com os livros, quem precisava da sua amizade a
retomar a consciência de si; mudava as vidas em redor.
–
E tu achas que eu ajudo as pessoas a tomar consciência de si e mudo as vidas em
redor, Chapulin?
–
Vou responder-te com uma música: Your Song de Elton John, conheces?
–
Não, mas tenho a sensação de que vou passar a conhecer. – inquiriu, ao passo
que ele buscava no telemóvel o ficheiro da música.
– Encontrei! Escuta:
“And you can tell everybody this is your song,
It may be quite simple, but now that it's done,
I hope you don't mind, I hope you don't mind
that I put down in words,
How wonderful life is while you're in the world.”
Como a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. – terminou, após ter
colocado o fone esquerdo na sua orelha direita e o fone direito na orelha
esquerda dela.
Como
a vida é maravilhosa enquanto tu estás no mundo. Basicamente era isso. Desde
que a minha Liesel estivesse, tudo era aturável, até mesmo o gang das
picardias, aquele que me levava à ardência do Colorado, a troca da esquerda com
a direita ou a direita com a esquerda.
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