Ela deixou os filhos
com a mãe e foi buscá-lo, ao aeroporto. Nem sabia como se comportar. Há uma
década que não se viam. Desentenderam-se, tinha a criança de ambos cinco anos.
Ele emigrou; ela desesperou e encontrou num outro companheiro o conforto que a
sua fragilidade pedia. Uma tranquilidade que só durou um par de anos e da qual
resultou mais uma criança. Tinha agora um filho de quinze anos e uma menina de
nove. Nada na vida dava certo, a não ser a bênção de ser mãe. Começava a
exasperar. “Tinha um filho de cada homem”, o irmão. “Iludiu-se”, o irmão. “Tens
de ter juízo agora”, o irmão, “que uma mulher não pode andar por aí a namorar,
que já és muito falada, que estás a ser egoísta e a fazer sofrer os pais, e
toda a gente sabe”, o irmão, divorciado pela quarta vez e com uma diferente a
cada semana. “Há que praticar a Insustentável Leveza do Ser”, mana, “são amigas
coloridas, a ser confortadas de três em três semanas que assim não se põem com
ideias nem há chatices, amigas coloridas, mas eu sou homem e posso, tu és
mulher”.
Conceição Sousa in "FICA"

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