sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 28



Ela deixou os filhos com a mãe e foi buscá-lo, ao aeroporto. Nem sabia como se comportar. Há uma década que não se viam. Desentenderam-se, tinha a criança de ambos cinco anos. Ele emigrou; ela desesperou e encontrou num outro companheiro o conforto que a sua fragilidade pedia. Uma tranquilidade que só durou um par de anos e da qual resultou mais uma criança. Tinha agora um filho de quinze anos e uma menina de nove. Nada na vida dava certo, a não ser a bênção de ser mãe. Começava a exasperar. “Tinha um filho de cada homem”, o irmão. “Iludiu-se”, o irmão. “Tens de ter juízo agora”, o irmão, “que uma mulher não pode andar por aí a namorar, que já és muito falada, que estás a ser egoísta e a fazer sofrer os pais, e toda a gente sabe”, o irmão, divorciado pela quarta vez e com uma diferente a cada semana. “Há que praticar a Insustentável Leveza do Ser”, mana, “são amigas coloridas, a ser confortadas de três em três semanas que assim não se põem com ideias nem há chatices, amigas coloridas, mas eu sou homem e posso, tu és mulher”.

Conceição Sousa in "FICA"

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