terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulo 1: Será que tu mereces uma vulva?


 Fica.

A indigência exasperada das palavras dele, pancadas secas a diluírem-se no vapor concertado entre o sopro mordido no lobo auricular esquerdo e o incenso a luz de velas a exalar a névoa premonitória de um hiato de mundo, um interregno de vida – e um interregno de ambos, daquele estar junto, significava o fim, para ele era o fim; se não pudesse privar de instantes com ela, era o mesmo que não estar. A vida não se chamava vida, chamava-se ela. Prestava culto ao estirar rangido de braços a competir com o lânguido lamento da saliência das nádegas; e mais uma dentada (estava a roga-las, pensava) na indolência melancólica a prever o crespo. O espreguiçar hirsuto e demorado dela a querer retornar ao sono; nova dentada no espaço mole da irresoluta orelha e uma palavra, apenas uma, que detinha um novelo de auroras a desfiar uma tese de crepúsculos.

 – Fica.

O nó, atravessado na garganta, a suster a água miraculosa temperada de sal, que ninguém sabe a que ínfimo ponto de luz deve orto, embora perceba no cintilar da retina a trepidação de caminhos pungentes; ninguém adivinha que mistérios aquele rio encerra, de que astros provém o relampaguear intempestivo das íris, e o porquê da salitre, em tudo idêntica à do mar, o ardor que nos cobre o rosto ressequido de cada vez que o carreiro fluctígeno brota dos gemidos contidos. Encerraremos nós oceanos no âmago dos nossos abalos? Germinaremos nós veias hídricas geotérmicas que nos sustêm na gravidade do chão e nos causam tonturas nos círculos a que nos magnetizam? Por que nos sentimos tão aprisionados a certas pessoas? Tu és o meu cárcere.

– Fica.

Confluiremos nós, mundos no interior de outros mundos, a albergar outros mundos, em réplicas ascendentes e descendentes de nós mesmos, embora não nos reconheçamos na salitre dos oceanos, no bafo quente da terra, no tremor das efusões vulcânicas? Por que trepida o corpo? Por que soluça convulsivamente? Não ordenou à carne que se agitasse e se sacudisse repetidamente. Por que treme o Homem sempre que sente frio, ansiedade, prazer, pânico ou se encontra febril? Quem estabelece parâmetros para que as sensações se desencadeiem ou adormeçam? Quem dá as ordens? Como, tão repentinamente, surgem evidências de haver o que não havia? De se materializar o que apenas pairava no campo energético?

– Fica.

Sinto tristeza, esta coisa a que também posso chamar de mágoa, aflição, pena, angústia, inquietação, melancolia. São tudo nomes para esta coisa desprovida de matéria. E depois há as evidências de que esta coisa incorpórea existe: a água que se solta pelos canos dos olhos (Donde vem, tão subitamente? E é água salgada, água benta, água-choca, água-água? Onde se dá a mistura? De que mistura é feita a água de uma lágrima? Qual o componente que transporta a tristeza? Quem a põe lá? E, se a transporta, para onde a leva? Aonde quer a lágrima chegar com a tristeza que carrega? E será que chega?); a oscilação dos membros, o tremor subcutâneo que aperta os poros e os eleva, pele de galinha, cutículas de angústia, espasmos de deleite (Como conseguem ficar tão hirtos, assim de ímpeto? E onde se aloja o pânico ou o êxtase? Em que espaço dos inúmeros, minúsculos, cogumelos se deterão? Ou derramar-se-ão por entre eles, tomando como veículo a transudação? Para onde carrega o suor o temor ou o clímax? – a água, novamente, o sal… E o que vão fazer lá, onde quer que seja?). O que são as sensações?

– Fica, meu amor, fica.

Observava-a, no seu sono profundo, era linda e não queria acordar. Se calhar ver é de olhos fechados. Tão linda a minha mulher. Tão linda. Pressentia que, dali para a frente e durante muito tempo, vê-la seria assim, a dormir, de olhos fechados, como os ursos ou as tartarugas, furioso e devagar, em estado de hibernação. Simplesmente adorava contemplá-la. Não conseguia deixar de murmurar “tão linda a minha mulher”. Sentia-se um pintor renascentista. Alocava os ângulos oblíquos da sua visão para detalhes das curvas dela: o lençol branco amarrotado a cobrir o cálice da sua embriaguez, a génese de todas as épocas, de todas as civilizações. Nem Tutankamons, nem Maias, nem Incas, nem Napoleões, nem Jesus Cristos, nem Luther Kings, nem Guerras Frias ou Holocaustos, nada de mundano existiria se não houvesse um cálice e um embriagado daquele cálice. A vulva. A sua casa. A sua primeira e a sua última casa. Havia um deslumbramento ali, um mistério sem mistério. Sabia que tinha chegado ao mundo pelo interior de uma vulva. Sentiria, talvez, uma saudade subconsciente do útero, do aquário de água temperada pelo sol, da voz da mãe, do embalo da mãe, da ternura da mãe, do calor apaziguador e protector da mãe. O início. O início? Sabia que teria continuidade no mundo pelo interior de uma vulva; era lá que se guardavam segredos, era lá que se estimulavam doces pecados – o pecado original. Mas por que raio haveria Deus de chamar pecado à origem? Não terá Deus orgulho na sua criação? Não criaria Deus o Homem à sua imagem e semelhança? E se Deus criou o mundo pela vulva, o mínimo que à vulva se deveria reconhecer seria o aspecto de Deus, a bênção de Deus, a arte de Deus, o caminho de e para Deus, o Santo Graal, a explicação dos desígnios da existência: um Óscar de Hollywood, uma bola de ouro, o prémio Nobel da criação. A vulva arroga-se o direito à vénia da humanidade. A vulva, seja ela qual for, independentemente da cor, do feitio, do usufruto que lhe é dado, é o centro nevrálgico das respostas a todas as questões, inclusive à primeira: quem somos, donde vimos, o que viemos cá fazer e para onde vamos. A vulva merece um hino existencial. Será que tu mereces uma vulva? Sentia-se aconchegado. Sabia exactamente o caminho da sua termia, o ponto incisivo do seu fulgor, a origem do ânimo, e percorria-o; percorria-o sofregamente, de olhos fechados, enquanto ela dormia.

– Por favor, fica.

 

 

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