terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulo 2: Nunca teve um grande amor, meu doce?


Encontravam-se, como já há um bouquet de meses o ornavam e com a conivência das estações (sem que disso dois terços de vagar o soubessem), no banco do jardim. Dispunham, ao desatarem as cordas das suas vivências, do trajecto cálido e incipiente até ao cemitério, mesmo ali à beira, a sondar as badaladas de ocasião – isso eles tinham aprendido, que tudo se resume a uma badalada de ocasião: ou é agora ou é nunca. A série ininterrupta de instantes que, quer queiramos quer não, e por muito que tentemos demorar-nos, flui sempre num rio unidirecional imparável de suspiros até ao culminar do nosso sopro. Vicejavam cada etapa de mundo, cada pormenor de longínquo a roçar as areias esvaídas do sonho, no perscrutar dos movimentos soltos, frescos e ondulantes das crianças que brincavam alheias e sorridentes no parque infantil adiante. Uma certa saudade, uma certa revolta, uma certa inveja dos movimentos soltos, frescos e ondulantes.

Será que o vivi mesmo? Será que era eu? Não me reconheço, és-me um estranho nas catacumbas do tempo… Vegetavam com força para que aqueles outros, aqueles muitos outros anteriores a si, não vaporizassem. Não mereciam sofrer prejuízo, dano, ruína, dissipar-se… ai que dor!, pensar que tudo cai na amnésia do esquecimento. Ostentavam-se corpos ténues e combalidos, os que outrora foram e os que agora eram, para que não se perdessem, por culpa ou descuido, contingência ou desgraça (sei lá!), definitivamente no carrocel daquela medida arbitrária de duração das coisas. E quanto tempo urge para que se sinta algo como durável? Haverá mesmo um sentido das coisas? E um sentido das coisas que permaneça? A mim tudo me parece efémero e fugaz, puf!, já foi, aconteceu de acontecido logo deixou de existir – se é que alguma vez existiu de facto. O que é existir? É o que fica, de afável? As crianças. Até ao interregno das memórias. Benditos sejam os anjos que nascem com ímpeto de historiador.

– Isto de malbaratar a vida, amigo, não é do meu feitio. – confessou-lhe, a sua orelha a proteger-se do frio no ombro robusto dele, a mão na orelha dele, a mordiscar-lhe o fresquinho, um hábito que a acompanha desde o biberão. – Não podemos menosprezar o tempo a que já não regressamos, não acha? Há que confidenciar todos os nossos passos, reter a objectiva em locais onde estivemos e a que não voltamos; rebater olhares, trejeitos, sorrisos e lágrimas; diluí-los no apego a um sentido de missão e resgatá-los numa carta, no auricular de um neto, de uma neta, no tactear de um caminho de rugas sensatas e atentas no rosto de um amigo, um que por sinal escreve. – Sorriu, ao de leve, enquanto reclinava a sobrancelha à procura do cintilar de espelho na retina mais acima. – Ouviu-me, não ouviu?

– Sim, minha querida, embora surdo para setenta por cento de mundo vencido, este meu ouvido direito ainda me brinda com uma certa cortesia de me fazer escutar laivos de permanência. E eu adoro, simplesmente adoro, tudo o que me diz. Pena não tê-la conhecido bem lá atrás, esta de agora, quando a pujança ainda me assistia ao tónus muscular. Ainda se arranja qualquer coisinha, filha. – Brincou, ao engelhar a ponta do nariz, como que a perguntar “queres?” – Qualquer, não. Vamos fazer isto direito: a coisinha. Porque é, novamente, “a tal” sabe? Sinto-a como “ a tal”, linda.

– Novamente? – inquiriu, curiosa de saber quantas vidas assomadas de paixão aquele seu actual companheiro furtivo diário de banco de jardim abraçou. Quantas não seria bem o alvo da sua atenção. Talvez, de certeza!, como aquele homem tão cativante e prenhe de intenso as havia beijado. Quem ele era. Quem, lá no âmago, ele era. Porque, à superfície, doía-lhe aquela vontade tardia de ficar quando sabia o campo santo mesmo ali ao pé. Não era justo. Tão tarde. Não era justo. Queria muito ficar.

– Vou contar-lhe o que tanto quer saber. Vou contar-lhe por que me faz lembrar o que sentia quando a tinha por perto, quando a vida me fez saber o nome dela: minha. E assim foi, até ao fim. Minha. Minha. Minha. A minha mulher. A minha linda mulher. A minha vida.

– Deve ser bom ter tido um amor assim. O que eu não daria por ter um amor assim, ai! – admoestou-se, um pouco enciumada. Não sabe se por aquele homem não estar a olhar apenas para si e ter um passado grandioso com o qual não se imaginava sequer com capacidade para competir, ou se por ter a sensação amarga de nunca ter vivido um grande amor. Não quer dizer que não tenha tido os seus amores, que não tenha feito por cuidar deles, preservá-los, que não tenha sido feliz na tranquilidade que sempre, tão racionalmente, calculou. Não ia, contudo, enganar-se. Nunca auferiu de um amor paixão. Nem sabe sequer se teria sido bom. Sentir? Sentiu. Um par de vezes, e só. Sempre fiapos de sol. Ou não foi correspondida. Foi-lhe dito que não era correspondida. Foi-lhe feito sentir que era descartável, que havia alguém acima na hierarquia, alguém prioritário, e que ela não era das que alguma vez pudesse entrar nessa categoria. Ser considerada prioritária. Ou o seu fiapo de sol amainou quando compreendeu a enorme distância que o outro estava das suas expectativas. É certo que, em ambas as ocasiões, sentiu que chegou tarde, sentiu que era amada mas para uma outra vida talvez. Não é que não fosse amada. Sentiu que o era. Até na escalada do prioritário, talvez a prioridade fosse ela, mas a cobardia ou a presunção de quem a amava prioritariamente era maior. Ou a tinham por garantida e escolhiam sempre ir a outro lugar, estar com outras pessoas, envolvidos em outras actividades, porque depois ela estaria no lugar de sempre à espera; ou preferiam não arriscar o abalo daquele impulso, daquela agitação intempestiva, acobardavam-se e deixavam-se estar, confortáveis no amor tranquilo de que usufruíam com outros.

– Nunca teve um grande amor, meu doce? – indagou, perplexo; conseguia perceber o elevado grau de beleza nas feições e na alma da sua companheira de banco de jardim ao pé do campo santo. Parecia-lhe inacreditável que aquela menina de olhos grisalhos ambivalentes, ora cor de floresta em plena monção se o cinzento acoberta o céu, ora cor de mel em pele de avelã se o azul platina em forros dourados, tivesse passado pela vida sem ter sido vista, sem ter sido encantada, sem ter degustado todos os prazeres de um amor cúmplice no fogo e na água. Que coração não estremece quando a tempestade se acerca? E ela carregava cheias fluviais na bruma iodada daquelas íris. Que alma não grita ao toque aveludado do vociferar ternurento? E ela chispava feixes de afeição na candura com que estreitava o escrutínio das pestanas.

– Não. Nunca tive um amor assim. – rematou. Não valia a pena tecer conjecturas sobre factos vivenciados desta e não daquela forma. A verdade é que, por muito que especulasse ou acreditasse que sentia desta ou daquela maneira, a rejeição, a negação, aconteceu. A verdade é que a sua disponibilidade para aquele amor específico lhe foi negada. Nunca se acobardou. Sempre que sentia que era intenso, forte, que podia ser algo maior, ela desvendava ao outro o seu sentir. Não olhava a convenções  nem a argumentos de condição. Precipitava-se no que sentia como o alcance da sua vida. E não alcançava. A fuga ou a recusa, eis as suas respostas. Não lhe importava se tinham companheira, filhos, trabalho ou actividade irrecusável. Desconsiderava as circunstâncias perante o que se profetizava como o elixir da sua vida, o significado que sempre buscara. Ela estendia as cartas na mesa. A resposta? Não. Sempre não, caramba!

– Pode ser que…

– Agora? Sim. Quando for hora, saberei. – interrompeu. Não podia deixar de sentir inveja de quem gargalhava face ao verdadeiro amor. Por muito que fantasiasse, o único que lhe havia sido destinado foi a total exclusão por parte de quem, acima de todos os outros, nunca a deveria ter excluído. E essa era a dor maior. Saber-se invisível, saber-se completamente dispensável, não merecedora daquela atenção especial. Transportava naus de lágrimas carcomidas de salitre e de interrogações “Por que não eu?”. Quando reparava no amor que se passeava de mão dada pelas ruas, embrenhado em si próprio, deslumbrado nos seus tiques de ridículo, acotovelava-se de mordeduras entredentes e ponderava “ Mas será mesmo possível? Que tristes figuras…”. Ainda hoje não sabe se há-de acreditar que isso existe: isso pois, o verdadeiro amor. O problema? O problema é que andou lá perto…

Dava gosto vê-los, ali, detidos, naquele banco de jardim ao pé do campo santo. Ele, de quando em vez, aclarava-lhe as maçãs do rosto ao alinhar os fios prateados por detrás das orelhas selvagens, perdurava as mãos naquele ângulo de enrubescimento, anestesiava as frieiras teimosas por debaixo das luvas que se recusava a usar quando segurava o olhar de ambos no ínfimo espaço do que cabe entre duas mãos. E o que cabe entre duas mãos é, possivelmente, o encontro de duas vidas que se pensam a culminar, mas, de facto, começam naquela precisa faúlha.

– Há Outonos que nasceram para ser Primaveras, sabe? – desafiou-a, a língua a espreitar o rebordo do lábio. Pensou que este era seguramente um desses Outonos. Não eram grãos de arroz o que caía do alto, era o restolho de folhas secas, esburacadas, hirtas na cadência vagarosa rumo ao abismo. Porque tudo nesta vida perde as águas. A humidade das coisas gasta-se. A sério! E o mais divertido (que de divertido não tem nada) é que os líquidos desperdiçam-se em tarefas de irrisório. Carradas de litros a escorrer, seiva que se evapora em cada rosto que chora. Mais adiante compreendemos que derramamos todo o nosso ser por motivo de nada. E ficamos assim secos e hirtos, incapazes de liquidificar quando o motivo acontece. Incapazes por não nos restar mais água ou porque é tarde demais.

Mesmo assim, as folhas secas e hirtas tocavam-se entre elas, como as pessoas também se tocam. Já não acreditam, perderam as águas, mas continuam a tocar-se, até que um dia… As folhas  roçavam-se num início de salpicar de castanhas no lume: umas queimam-se, estorricam-se, endurecem e não servem p’ra nada a não ser quebrar dentes; outras entreabrem-se, corpulentas, airosas, e tornam-se saborosas, prazerosas p’ra quem as degusta. A diferença entre umas e outras está no efeito, de umas resultam maxilares cerrados e rancores, quiçá esmaltes lascados de outras bocas abertas até ao céu e guitarras gemidas. Aqueles estouros? Talvez encontros repentinos que desabrocham em relações estonteantes, estados de choque rangidos a sorver todos os lamentos e a abafar sortidos de pranto; talvez fogo-de-artifício a celebrar o amor que ali acontece, naquele banco de jardim à beira do campo santo. Ela reclinava-se, de todas as vezes, na lã das suas omoplatas. Embrulhava o antebraço nas palmas das suas mãos e transudava das veias palpitações fugidias. Pudera ela escrever o que lhe ia no sangue… diabetes, sim; colesterol, sim; hipertensão, sim; mas não era isso que ela queria escrever, algo que as análises clínicas ainda não vertem, algo que ela sentia nas arritmias que pulsavam nele. Seria verdade? Seria mesmo verdade?

– Ainda não sabe, minha querida? – levantou o sobrolho, astuto na resposta que era a sua. – Preste atenção, vou contar-lhe, outra vez, para que compreenda melhor, para que saiba exactamente o que sinto por si. Demore-se. Demore-se por aqui e escute. Amanhã, se necessário, volto e repito, meu bem, não vá o Alzheimer tecê-las, combinado?

 

Sem comentários:

Enviar um comentário