Encontravam-se,
como já há um bouquet de meses o ornavam e com a conivência das estações (sem
que disso dois terços de vagar o soubessem), no banco do jardim. Dispunham, ao
desatarem as cordas das suas vivências, do trajecto cálido e incipiente até ao
cemitério, mesmo ali à beira, a sondar as badaladas de ocasião – isso eles
tinham aprendido, que tudo se resume a uma badalada de ocasião: ou é agora ou é
nunca. A série ininterrupta de instantes que, quer queiramos quer não, e por
muito que tentemos demorar-nos, flui sempre num rio unidirecional imparável de
suspiros até ao culminar do nosso sopro. Vicejavam cada etapa de mundo, cada
pormenor de longínquo a roçar as areias esvaídas do sonho, no perscrutar dos
movimentos soltos, frescos e ondulantes das crianças que brincavam alheias e
sorridentes no parque infantil adiante. Uma certa saudade, uma certa revolta,
uma certa inveja dos movimentos soltos, frescos e ondulantes.
Será
que o vivi mesmo? Será que era eu? Não me reconheço, és-me um estranho nas
catacumbas do tempo… Vegetavam com força para que aqueles outros, aqueles
muitos outros anteriores a si, não vaporizassem. Não mereciam sofrer prejuízo,
dano, ruína, dissipar-se… ai que dor!, pensar que tudo cai na amnésia do esquecimento.
Ostentavam-se corpos ténues e combalidos, os que outrora foram e os que agora
eram, para que não se perdessem, por culpa ou descuido, contingência ou
desgraça (sei lá!), definitivamente no carrocel daquela medida arbitrária de
duração das coisas. E quanto tempo urge para que se sinta algo como durável?
Haverá mesmo um sentido das coisas? E um sentido das coisas que permaneça? A
mim tudo me parece efémero e fugaz, puf!, já foi, aconteceu de acontecido logo
deixou de existir – se é que alguma vez existiu de facto. O que é existir? É o
que fica, de afável? As crianças. Até ao interregno das memórias. Benditos
sejam os anjos que nascem com ímpeto de historiador.
–
Isto de malbaratar a vida, amigo, não é do meu feitio. – confessou-lhe, a sua
orelha a proteger-se do frio no ombro robusto dele, a mão na orelha dele, a
mordiscar-lhe o fresquinho, um hábito que a acompanha desde o biberão. – Não podemos
menosprezar o tempo a que já não regressamos, não acha? Há que confidenciar
todos os nossos passos, reter a objectiva em locais onde estivemos e a que não
voltamos; rebater olhares, trejeitos, sorrisos e lágrimas; diluí-los no apego a
um sentido de missão e resgatá-los numa carta, no auricular de um neto, de uma
neta, no tactear de um caminho de rugas sensatas e atentas no rosto de um
amigo, um que por sinal escreve. – Sorriu, ao de leve, enquanto reclinava a
sobrancelha à procura do cintilar de espelho na retina mais acima. – Ouviu-me,
não ouviu?
–
Sim, minha querida, embora surdo para setenta por cento de mundo vencido, este
meu ouvido direito ainda me brinda com uma certa cortesia de me fazer escutar
laivos de permanência. E eu adoro, simplesmente adoro, tudo o que me diz. Pena
não tê-la conhecido bem lá atrás, esta de agora, quando a pujança ainda me
assistia ao tónus muscular. Ainda se arranja qualquer coisinha, filha. –
Brincou, ao engelhar a ponta do nariz, como que a perguntar “queres?” –
Qualquer, não. Vamos fazer isto direito: a coisinha. Porque é, novamente, “a
tal” sabe? Sinto-a como “ a tal”, linda.
–
Novamente? – inquiriu, curiosa de saber quantas vidas assomadas de paixão
aquele seu actual companheiro furtivo diário de banco de jardim abraçou.
Quantas não seria bem o alvo da sua atenção. Talvez, de certeza!, como aquele
homem tão cativante e prenhe de intenso as havia beijado. Quem ele era. Quem,
lá no âmago, ele era. Porque, à superfície, doía-lhe aquela vontade tardia de
ficar quando sabia o campo santo mesmo ali ao pé. Não era justo. Tão tarde. Não
era justo. Queria muito ficar.
–
Vou contar-lhe o que tanto quer saber. Vou contar-lhe por que me faz lembrar o
que sentia quando a tinha por perto, quando a vida me fez saber o nome dela:
minha. E assim foi, até ao fim. Minha. Minha. Minha. A minha mulher. A minha
linda mulher. A minha vida.
–
Deve ser bom ter tido um amor assim. O que eu não daria por ter um amor assim,
ai! – admoestou-se, um pouco enciumada. Não sabe se por aquele homem não estar
a olhar apenas para si e ter um passado grandioso com o qual não se imaginava
sequer com capacidade para competir, ou se por ter a sensação amarga de nunca
ter vivido um grande amor. Não quer dizer que não tenha tido os seus amores,
que não tenha feito por cuidar deles, preservá-los, que não tenha sido feliz na
tranquilidade que sempre, tão racionalmente, calculou. Não ia, contudo,
enganar-se. Nunca auferiu de um amor paixão. Nem sabe sequer se teria sido bom.
Sentir? Sentiu. Um par de vezes, e só. Sempre fiapos de sol. Ou não foi correspondida.
Foi-lhe dito que não era correspondida. Foi-lhe feito sentir que era
descartável, que havia alguém acima na hierarquia, alguém prioritário, e que
ela não era das que alguma vez pudesse entrar nessa categoria. Ser considerada
prioritária. Ou o seu fiapo de sol amainou quando compreendeu a enorme
distância que o outro estava das suas expectativas. É certo que, em ambas as
ocasiões, sentiu que chegou tarde, sentiu que era amada mas para uma outra vida
talvez. Não é que não fosse amada. Sentiu que o era. Até na escalada do
prioritário, talvez a prioridade fosse ela, mas a cobardia ou a presunção de
quem a amava prioritariamente era maior. Ou a tinham por garantida e escolhiam
sempre ir a outro lugar, estar com outras pessoas, envolvidos em outras actividades,
porque depois ela estaria no lugar de sempre à espera; ou preferiam não
arriscar o abalo daquele impulso, daquela agitação intempestiva, acobardavam-se
e deixavam-se estar, confortáveis no amor tranquilo de que usufruíam com outros.
–
Nunca teve um grande amor, meu doce? – indagou, perplexo; conseguia perceber o
elevado grau de beleza nas feições e na alma da sua companheira de banco de
jardim ao pé do campo santo. Parecia-lhe inacreditável que aquela menina de
olhos grisalhos ambivalentes, ora cor de floresta em plena monção se o cinzento
acoberta o céu, ora cor de mel em pele de avelã se o azul platina em forros
dourados, tivesse passado pela vida sem ter sido vista, sem ter sido encantada,
sem ter degustado todos os prazeres de um amor cúmplice no fogo e na água. Que
coração não estremece quando a tempestade se acerca? E ela carregava cheias fluviais
na bruma iodada daquelas íris. Que alma não grita ao toque aveludado do
vociferar ternurento? E ela chispava feixes de afeição na candura com que
estreitava o escrutínio das pestanas.
–
Não. Nunca tive um amor assim. – rematou. Não valia a pena tecer conjecturas
sobre factos vivenciados desta e não daquela forma. A verdade é que, por muito
que especulasse ou acreditasse que sentia desta ou daquela maneira, a rejeição,
a negação, aconteceu. A verdade é que a sua disponibilidade para aquele amor
específico lhe foi negada. Nunca se acobardou. Sempre que sentia que era
intenso, forte, que podia ser algo maior, ela desvendava ao outro o seu sentir.
Não olhava a convenções nem a argumentos
de condição. Precipitava-se no que sentia como o alcance da sua vida. E não
alcançava. A fuga ou a recusa, eis as suas respostas. Não lhe importava se
tinham companheira, filhos, trabalho ou actividade irrecusável. Desconsiderava
as circunstâncias perante o que se profetizava como o elixir da sua vida, o
significado que sempre buscara. Ela estendia as cartas na mesa. A resposta?
Não. Sempre não, caramba!
–
Pode ser que…
–
Agora? Sim. Quando for hora, saberei. – interrompeu. Não podia deixar de sentir
inveja de quem gargalhava face ao verdadeiro amor. Por muito que fantasiasse, o
único que lhe havia sido destinado foi a total exclusão por parte de quem, acima
de todos os outros, nunca a deveria ter excluído. E essa era a dor maior.
Saber-se invisível, saber-se completamente dispensável, não merecedora daquela
atenção especial. Transportava naus de lágrimas carcomidas de salitre e de
interrogações “Por que não eu?”. Quando reparava no amor que se passeava de mão
dada pelas ruas, embrenhado em si próprio, deslumbrado nos seus tiques de
ridículo, acotovelava-se de mordeduras entredentes e ponderava “ Mas será mesmo
possível? Que tristes figuras…”. Ainda hoje não sabe se há-de acreditar que
isso existe: isso pois, o verdadeiro amor. O problema? O problema é que andou
lá perto…
Dava
gosto vê-los, ali, detidos, naquele banco de jardim ao pé do campo santo. Ele,
de quando em vez, aclarava-lhe as maçãs do rosto ao alinhar os fios prateados
por detrás das orelhas selvagens, perdurava as mãos naquele ângulo de
enrubescimento, anestesiava as frieiras teimosas por debaixo das luvas que se
recusava a usar quando segurava o olhar de ambos no ínfimo espaço do que cabe
entre duas mãos. E o que cabe entre duas mãos é, possivelmente, o encontro de
duas vidas que se pensam a culminar, mas, de facto, começam naquela precisa
faúlha.
–
Há Outonos que nasceram para ser Primaveras, sabe? – desafiou-a, a língua a
espreitar o rebordo do lábio. Pensou que este era seguramente um desses
Outonos. Não eram grãos de arroz o que caía do alto, era o restolho de folhas
secas, esburacadas, hirtas na cadência vagarosa rumo ao abismo. Porque tudo
nesta vida perde as águas. A humidade das coisas gasta-se. A sério! E o mais
divertido (que de divertido não tem nada) é que os líquidos desperdiçam-se em
tarefas de irrisório. Carradas de litros a escorrer, seiva que se evapora em
cada rosto que chora. Mais adiante compreendemos que derramamos todo o nosso
ser por motivo de nada. E ficamos assim secos e hirtos, incapazes de liquidificar
quando o motivo acontece. Incapazes por não nos restar mais água ou porque é
tarde demais.
Mesmo
assim, as folhas secas e hirtas tocavam-se entre elas, como as pessoas também
se tocam. Já não acreditam, perderam as águas, mas continuam a tocar-se, até
que um dia… As folhas roçavam-se num
início de salpicar de castanhas no lume: umas queimam-se, estorricam-se,
endurecem e não servem p’ra nada a não ser quebrar dentes; outras
entreabrem-se, corpulentas, airosas, e tornam-se saborosas, prazerosas p’ra
quem as degusta. A diferença entre umas e outras está no efeito, de umas
resultam maxilares cerrados e rancores, quiçá esmaltes lascados de outras bocas
abertas até ao céu e guitarras gemidas. Aqueles estouros? Talvez encontros
repentinos que desabrocham em relações estonteantes, estados de choque rangidos
a sorver todos os lamentos e a abafar sortidos de pranto; talvez fogo-de-artifício
a celebrar o amor que ali acontece, naquele banco de jardim à beira do campo
santo. Ela reclinava-se, de todas as vezes, na lã das suas omoplatas.
Embrulhava o antebraço nas palmas das suas mãos e transudava das veias
palpitações fugidias. Pudera ela escrever o que lhe ia no sangue… diabetes,
sim; colesterol, sim; hipertensão, sim; mas não era isso que ela queria
escrever, algo que as análises clínicas ainda não vertem, algo que ela sentia
nas arritmias que pulsavam nele. Seria verdade? Seria mesmo verdade?
–
Ainda não sabe, minha querida? – levantou o sobrolho, astuto na resposta que
era a sua. – Preste atenção, vou contar-lhe, outra vez, para que compreenda
melhor, para que saiba exactamente o que sinto por si. Demore-se. Demore-se por
aqui e escute. Amanhã, se necessário, volto e repito, meu bem, não vá o
Alzheimer tecê-las, combinado?
Sem comentários:
Enviar um comentário